Rede de Conspiradores Preservacionistas
Meus ansiosos leitores, vós podeis vos acalmar, pois não vos estou prenunciando uma terceira guerra nuclear, senão a própria antítese de uma conflagração mundial. A nação que, durante toda uma geração, foi acusada de haver provocado o pior de todos os conflitos e o genocídio de raças e populações, deu ao mundo um surpreendente exemplo de que não pode haver progresso com a destruição de outras nações e com a perda de vidas inocentes do seu povo. A tradicional desculpa dos governantes das grandes nações que “uns dão a vida pela liberdade de muitos” foi retificada pela nação Alemanha, que reescreve a história com a afirmação de que “uns se libertam pela vida de todos”.
No dia 30 de maio de 2011, uma data histórica que não se poderá jamais perder de vista, a Alemanha anunciou ao mundo que desistia de produzir energia nuclear, e que até 2022 todas as suas usinas estariam desativadas. E para que não suscitassem dúvidas ou alegações levianas de outras nações, o que seria inevitável acontecer, o Ministro do Ambiente da Alemanha declarou que a decisão alemã era irreversível.
Na ocasião, para surpresa geral de seus aliados europeus e dos norte-americanos, a Alemanha anunciou a definitiva desativação de sete usinas que haviam sido desligadas após a tragédia de Fukushima, e o imediato desligamento de uma oitava que corria o risco de uma avaria a qualquer momento. As demais 17 centrais nucleares mais antigas serão definitivamente desligad
as até 2021 e as três que entraram em atividade mais recentemente serão desligadas em 2022.
A Teia Ambiental não existe somente para denunciar o mal, mas também, e principalmente, para exaltar o bem. Esta nossa Teia não se alimenta das desgraças e tragédias, mas de atos que exaltem o comprometimento da humanidade com a sustentabilidade da vida no planeta.
A Alemanha jogou baldes de água fria sobre seus principais aliados, como França e Estados Unidos, que defendem o uso da energia nuclear, e não só para fins pacíficos, ainda que mantenham o tradicional discurso hipócrita que estão lutando pelas causas dos fracos e oprimidos. Os arsenais nucleares desmentem as falsas premissas de paz, e ainda estimulam que países menos desenvolvidos produzam armas, a partir da energia nuclear, para ameaçar seus vizinhos, como Israel e Irã, ou as duas Coréias. 
Depois dessa decisão alemã, o discurso progressista do Irã perde o sentido, as desculpas da China, da Índia e do Brasil se tornam ridículas, ainda mais se os reatores utilizados em suas usinas tiverem vindo da Alemanha, como acontece com as usinas brasileiras de Angra.
As tragédias e as guerras, com seus sofrimentos e cicatrizes, sempre deixam belas lições para a humanidade. Fukushima ganhou notoriedade mundial, não por ser uma progressista cidade japonesa, mas por ter sofrido um abalo terrível em sua estrutura física e humana, com um safanão da natureza, que chamou a atenção do resto do mundo.
O terremoto gerado por uma convulsão da Terra, em reação às agressões provocadas pela devastação ambiental, atingiu fisicamente o Japão, mas abalou emocionalmente o mundo inteiro.
A mensagem de Fukushima foi captada por nações ricas e pobres, laicas e fundamentalistas, cristãs e pagãs, numa demonstração clara que a Natureza tem uma linguagem própria, que precisa ser entendida pela humanidade, para o seu próprio bem. E que ninguém acuse a Alemanha de estar tomando essa decisão por uma postura religiosa ou mística, pois se há um povo frio e calculista, sem dúvida, este povo é o alemão.
Que também não se pense que a Alemanha dependa pouco da energia nuclear e que possua diversas outras opções disponíveis, como acontece com o Brasil, que poderá encontrar nos rios, no sol e nos ventos, alternativas mais limpas e com menos riscos ambientais. A energia nuclear representa 22% da produção energética alemã, e a substituição dessa forma de energia por qualquer
outra ainda não foi anunciada pelo governo alemão.
O povo alemão teve a sua parcela de responsabilidade, diante dessa decisão, pois, dois dias antes, foram para as ruas mais de 150.000 pessoas, em protesto contra o uso da energia nuclear e exigindo o fechamento das usinas. O povo não estava preocupado com emprego ou com o desenvolvimento a qualquer preço, mas com a sua sobrevivência, com a preservação das suas vidas.
O povo alemão não se deixou seduzir por programas de aceleração do progresso, nem pelo crescimento dos empregos, e muito menos com o fechamento das indústrias que alimentam e produzem peças para as usinas nucleares. Eles não precisaram esperar que instituições ambientais internacionais, tipo Greenpeace, promovessem manifestações no território alemão. Eles foram para as ruas e exigiram um basta, antes que viessem a sofrer os horrores semelhantes aos sofridos pelos russos em Chernobyl e pelos japoneses em Fukushima.
As indústrias responsáveis pela produção da energia nuclear alemã, RWE, E.ON, Vattenfall e a EnBW ficaram em polvorosa, pois terão de se adaptar às novas formas de energia, se quiserem sobreviver. A ameaça de desemprego e a transferência de seus investimentos para outras nações serão argumentos inevitáveis e repetitivos, como formas de pressão, tentando demover o governo da decisão.
A decisão alemã enfraquece os lobistas pró-nucleares e é um golpe nas tentativas que, de tempos em tempos, ocorrem na União Européia de convencer países a aderir ao “clube nuclear”, como tem acontecido em Portugal. Que nossos irmãos portugueses sigam o caminho dos bravos guerreiros alemães, dizendo NÃO à contaminação pela energia atômica ou pela estupidez humana.
Meu atento leitor, essa estupidez a que me refiro não se refere somente aos riscos da energia nuclear, mas de tudo que se relacione à natureza e ameace o futuro da humanidade. Nós, brasileiros, precisaremos estar prontos para tomar atitudes semelhantes ao povo alemão, que não se deixando seduzir por promessas de desenvolvimento a qualquer custo, foi para as ruas exigindo, em primeiro lugar, segurança e qualidade de vida.
De que adianta desenvolvimento e emprego, se não existir saúde e bem estar? De que servem luzes elétricas e máquinas funcionando, se o povo viver sob as sombras desse progresso que favorece os mais ricos e distribui esmolas aos que geram as riquezas? De que servem usinas, se fazem desaparecer florestas e poluem nossas águas? De que serve a promessa do futuro, se o presente destrói a perspectiva do amanhã?
No Brasil, luta-se para construir uma usina que causará um impacto ambiental desastroso, a Usina de Belo Monte, e o Instituto que deveria proteger o Meio Ambiente e os Recursos Naturais Renováveis, acaba de adotar uma decisão política, autorizando o desmatamento de uma área de 238 hectares no Rio Xingu, no Estado do Pará. O absurdo ainda se torna mais inaceitável, quando se toma conhecimento que 64,5 hectares dessas terras pertencem a Área de Proteção Permanente.
Meus responsáveis leitores, um dia, o homem irá entender que o dinheiro não mata a sede e nem dá saúde a ninguém. Tratar as doenças não é sinônimo de proporcionar saúde. Assim também, o progresso econômico de uma nação não garante conforto e bem estar para o povo.
A Natureza não perdoa, e Fukushima é testemunha dos efeitos dessas ações punitivas. O Japão foi forçado a aprender a lição, em meio a uma enorme tragédia. A Alemanha se antecipou, e com a tradicional frieza e racionalidade alemã, cortou o mal pela raiz.
O Brasil ainda brinca de desviar rios e cortar árvores. Em Angra, disfarça-se a bobagem que foi feita com a aquisição do ferro-velho alemão. Enquanto isso, o sol brilha nos céus brasileiros o ano todo e os ventos sopram nos mares à espera dos cata-ventos que vão dar energia à Região Nordeste. O nosso imenso território pode produzir matéria-prima para o combustível limpo, se
m prejudicar a agricultura de alimentos.
Agora, meu pensativo leitor, o que achas dessa pantomima em que estamos metidos? Até quando, continuaremos exigindo a nossa própria condenação? O que significa progresso para ti, o dinheiro no bolso ou a saúde no corpo?
Não, não responde já. Pensa um pouco, reflita com calma. E se decidires tomar semelhante atitude à do povo alemão, cobra, enfim, do teu governante, que ele governe para ti, que o elegeste, e não para os que patrocinam suas eleições e encobrem suas fortunas.
A Alemanha deu um corajoso exemplo ao mundo, e cabe à Teia aplaudir e divulgar. Assim como Barcelona foi exaltada por dar uma destinação adequada ao seu lixo, a Alemanha está recebendo as nossas homenagens por proteger o seu povo e dar um exemplo de como é possível governar para o povo, com o povo e pelo povo.
A nova guerra nuclear já começou. A cada um de nós cabe pegar nas armas ecológicas e entrar nessa luta, pois se a Alemanha pode tomar essa decisão, o Brasil também pode. E, se o Brasil pode, o quanto não poderá também, o nosso velho Portugal.
Ah, querida Lisboa, houve um tempo que corrias o risco de ser francesa! Que tal, só por uns tempos, tomar os ares de alemã, e não te permitires contaminar-te com o lixo atômico! Dá o teu exemplo, e que Brasília dê o nosso!








































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