sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

TEIA AMBIENTAL - ROYALTIES DO PETRÓLEO - PARA QUE SERVEM?






Meus atentos leitores, todos vós deveis estar acompanhando a luta travada no Congresso e nos corredores do Palácio, tentando puxar para um ou outro estado, a maior vantagem na divisão dos famosos royalties.
Na antiguidade, royalties eram valores pagos ao rei ou nobre, como compensação pela extração de recursos naturais em suas terras. O termo, nos tempos modernos, não se diferencia muito da antiguidade, com exceção de certa inversão de valores, o rei que antes recebia, agora distribui.
O Governo, como detentor do poder, se beneficia diretamente da extração do petróleo, e distribui royalties entre os estados mais afetados pela ação degradadora dessa extração. Cabe aos estados, redistribuir os valores entre as cidades mais atingidas.
A regra parece clara, mas não é. Não era antes, quando só os estados afetados diretamente pela extração e as respectivas cidades onde ocorriam as operações eram beneficiados. Menos clara ficou, no instante, em que se tenta beneficiar a todos os estados brasileiros.
A luta por esses quinhões, muito valiosos, diga-se de passagem, está quase se transformando em guerra civil, e não cívica, como se poderia esperar. Os governadores dos estados produtores, antes os únicos beneficiários, esbravejam contra o rateio projetado, enquanto os que governam os novos estados beneficiários tramam por maiores valores, e pressionam o Governo Federal através dos seus congressistas.
Surge, então, a pergunta que não pode calar – para que servem os recursos desses royalties? Bem, pensa comigo meu leitor, se os valores indenizam áreas degradadas, a destinação não poderia ser outra senão a recuperação e a proteção dessas áreas.
O petróleo no Brasil é extraído no oceano, em águas profundas, e tão profundas quanto são as consequências poluentes nas águas marinhas. Vez por outra, ocorrem vazamentos, sem contar os que não são noticiados. A cada dia, o nosso mar de águas claras se torna escuro com o óleo que nele é derramado. E não há como prevenir e nem remediar. Cuidados e maior segurança custam muito caro, é mais barato sujar o mar.
Estamos sendo poluídos, diariamente, pela terra, pelo ar e pelo mar. Não há culpados, todos são vítimas. Dizem que a poluição é por uma boa causa, e que a nação vai ficar mais rica, enquanto morrem peixes e se acaba com a vida submarina. Mas, para que serve a vida debaixo do mar, senão para alimentar a vida sobre a terra? É o que dizem!
Menos mal, se essa desgraça toda ainda dá um lucro que compense a degradação. Compensar não é bem o termo, mas deixa pra lá. Surgem, então, os royalties que são uma parte desse lucro, e que visa compensar as regiões mais afetadas ou agredidas.
Será que há dúvidas quanto à destinação correta desses royalties compensatórios? O bom senso diz que não há dúvida, e que os recursos devem destinar-se a recuperar as áreas degradadas, e se formos pensar em educação, que seja uma parcela aplicada na educação ambiental.
Que nada, dizem os governantes! Que bobagem, pensam os políticos! Se já degradou está degradado. Vamos pagar os funcionários públicos que precisam ganhar mais! Mas, com o dinheiro da destruição da natureza? E a natureza destruída, como fica?
Vamos dedicar o dinheiro à saúde. Mas, se cuidarmos da natureza, diminuem as doenças, e se gasta menos com a saúde. E os laboratórios, vão vender seus remédios para quem? E os médicos, onde irão encontrar clientes?
Não se pode esquecer a educação, que vai de mal a pior. Mas, o que os livros vão ensinar aos estudantes sobre a preservação da natureza e os cuidados com os recursos naturais? Que respostas terão os professores, diante de um questionamento sobre a destruição de florestas e oceanos? Como explicar que os royalties da destruição também são empregados em atividades industriais que provocam mais poluição e degradação ambiental?
Como os estudantes poderão entender que, os royalties que servem de compensação dos estragos provocados pela extração do petróleo, são aplicados em projetos que agredirão a natureza, com a construção de hidroelétricas, que provocarão a derrubada de florestas e a inundação de cidades?
Será que estamos copiando os reis e a nobreza que usavam os royalties para as suas festanças e a expansão de suas riquezas? Será que os royalties devem servir aos reis e não à restauração das áreas destruídas? Que coisa estranha! Como pensa esquisito o homem branco, não é mesmo cara pálida?


               



               

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

TEIA AMBIENTAL - LOUCURA OU AMBIENTALISMO?



              
 
Confesso-vos, meus caros leitores, que já nem sei quem sou – louco ou ambientalista. No início do despertar da minha consciência ecológica, julgava-me um preservacionista esclarecido, um ambientalista convicto, um cidadão orgulhoso por exercer minhas condições de cidadania. Agora, já não sei se não passo de um louco, obcecado pela preservação do planeta e pela limpeza da residência global onde habito.
Reconheço que, talvez, exagere quando considero o planeta a minha residência, mas o que fazer se sinto assim? Eu não consigo ver o quintal da minha casa ser a lixeira do mundo. Eu me rebelo por perceber que todos acham normal jogar o lixo no chão, e esperar que o lixeiro o recolha e o despeje no lixão.
A vontade que sinto é perguntar em que planeta fica o lixão? Será que existe um local no universo para onde enviar o lixo e preservar a qualidade de vida da Terra? Não, claro que não! A lixeira é aqui mesmo, logo ali na esquina, entre a minha casa e a do vizinho. Pelo menos, é assim que todos imaginam, pois o lixo vai sendo despejado pelo caminho.
Às vezes, eu fico pensando onde está a lógica de se comprar um tubo de pasta de dente, colocá-la num saquinho de papel e acondicionar este saquinho numa minúscula sacolinha plástica. Para que tantas embalagens ou por que tanto lixo? O balconista não sabe o que responder, e nem eu o que lhe dizer.
Estou ficando cansado de repetir sempre este mesmo lenga-lenga. Outro dia, comprei um pacote com três sabonetes sulforosos, típicos da minha cidade, e a mocinha já ia colocá-lo num minissaquinho, quando eu agradeci, e disse que não era preciso, pois estava com a minha mochila.
A menina me olhou espantada, e não sabia o que dizer. Eu perguntei se ela não achava que os sabonetes já estavam bem embalados, sem que fosse necessária uma sacola. E o que fazer com uma sacolinha daquelas? Ela respondeu a lição decorada, informando-me que servia para colocar lixo. Eu ainda tive paciência para perguntar que tipo de lixo, com uma sacolinha tão pequenina. Mas, não esperei a resposta.
Qualquer dia desses, eu vou ser recolhido como louco, pois estou sozinho na multidão. Não tão só, é verdade, minha Flora age da mesma forma, e, assim, corre o risco de me fazer companhia na camisa de força.
Se eu digo que sou vegetariano, ouço a tradicional pergunta: mas, por quê? E como responder a pergunta, sem ofender o ingênuo inquiridor? Cansei de falar dos males da carne, para quem a come e para quem cria os rebanhos e mata as pobres coitadas das vaquinhas e os boisinhos. Que mal faz matar, se o gado é criado para isso mesmo? Esta é a resposta que se não é dita, é pensada.
Sinto vontade de perguntar a religião de quem afirma isso, mas me calo para não arranjar uma polêmica religiosa, que costuma ser pior do que a ambiental. Por que matar o boi pode, e matar o cãozinho de estimação, nem pensar? Por que não é crime pegar um porco, um boi, uma galinha, e enfiar-lhes a faca? Eles são seres vivos, que sofrem tanto quanto nós.
Os cristãos não conseguem relacionar o “não matarás” com os bichos mortos que são assassinados para satisfazer seus prazeres à mesa. Os espíritas leem nos livros de Ramatis, que o Mestre repete insistentemente para o seu médium que “já tendes provas irrecusáveis de que podeis viver e gozar de ótima saúde sem recorreres à alimentação carnívora”. Mas, como associar a religião aos hábitos humanos, se a criatura cumpre os seus rituais religiosos como se fossem deveres de um dia só, e que nenhuma relação têm com suas atitudes diárias?
Sujamos as águas que saciam a nossa sede, lançando nos rios os dejetos domésticos e os resíduos industriais. E, depois, gastamos fortunas com equipamentos que irão despoluir mais adiante, o que poluímos aqui atrás. Parece coisa de maluco, e é.
Derrubamos árvores para criar o gado, e transformamos florestas em desertos. Secamos os rios, modificamos as estações das chuvas com agressões à natureza e, depois, perdemos toda a safra agrícola por conta dos crimes ambientais.
A tradição celebra a cada ano a queima dos pastos para trazer a relva verde para o gado. Ao final de três a cinco anos, a terra já não faz renascer o capim, por conta da perda dos nutrientes, a cada ritual das queimadas. E ninguém muda seus hábitos, nem as autoridades tomam medidas de proteção às matas.
E ainda temos de aturar as incoerentes afirmativas de que não está havendo variações climáticas provocadas pelos homens. A desgraça que estamos enfrentando em todas as partes do mundo deve ser levada à conta dos ciclos porque passa a Terra de tempos em tempos. E, diante disso, mais predadores destroem os recursos que seriam renováveis, se eles deixassem seguir o fluxo natural.
Discute-se se a temperatura do planeta está mais fria ou mais quente, enquanto se agride de todas as formas os recursos naturais, sem levar em conta que a resposta está nos atos em si, de agressão a esses recursos, como se eles fossem ilimitados.
As condições de vida estão piorando, apesar de toda a tecnologia disponível. A pobreza aumenta no mundo, a fome avança por regiões antes prósperas e autossuficientes nas plantações de alimentos básicos. A água potável está desaparecendo em diversas regiões, sendo cobrada e bem cobrada, em locais onde só os mais ricos podem pagar por uma garrafinha de água.
Tudo isso acontece diante dos olhos de uma civilização seduzida e hipnotizada pela ganância e pelo consumismo. Todos se vendem por umas miçangas ou turmalinas. A vida não se compra, pois não há dinheiro que a pague. Dinheiro não mata sede, pois chegará o dia em que, com o dinheiro na mão, o cidadão morrerá de sede.
Será que estou ficando louco, meu atento leitor? Preocupar-me com o excesso de sacolinhas, com embalagens em excesso, com lançamentos de tecnologia de ponta a cada ano. O lixão aumentando e as doenças acompanhando seu crescimento. O que está acontecendo com a raça humana?
O ser humano está perdendo a sua noção de solidariedade, e toma para si o que precisava ser dividido. Derrubar florestas dá emprego, então abaixo as árvores. Currais e granjas geram renda e matam a fome, nem importa com que consequências maléficas. O que conta mesmo é o dinheiro no bolso e a barriga cheia.
Eu estou me dirigindo a ti, meu inocente leitor, ou que te julgas como tal, que segues o maligno progresso que coloca o dinheiro na frente, e o resto vem depois. Tu és cúmplice dos responsáveis pela destruição da natureza, se consomes a política exploradora que toma conta do mundo.
Encerro por aqui esta minha dolorosa reflexão, antes que eu mesmo me tranque no hospício, vendo tantos celebrarem a desgraça da raça, enquanto eu esbravejo contra o que dá prazer e riqueza a essas hienas modernas.
Sou um louco, ou apenas um simples ambientalista?  E tu, meu calado leitor, entras no hospício comigo ou permaneces do lado de fora, testemunhando a minha loucura? Afinal, precisas decidir se tu és um consciente consumidor, um inveterado consumista ou um pobre consumido. Enquanto decides, eu sigo com as minhas loucuras, mais saudáveis que as ações insanas desses que se julgam lúcidos e coerentes.


domingo, 4 de novembro de 2012

QUE ASSIM SEJA - CAPÍTULO IV

Meus assíduos leitores:
Deixo-vos com o último capítulo deste curto conto.
Na semana vindoura, teremos um outro conto, enquanto continuamos aguardando a nova história, a ser publicada a partir de janeiro, intitulada MEMÓRIAS DE UM PROFETA.
Espero que gostem deste epílogo que estaremos publicando a seguir.
Abraços a todos.
Gilberto.



                                                 CAPÍTULO IV
            Lídia terminou a sua fala, observando o rosto de Roque, que não contraía um músculo sequer. Ela não se conteve, e tocou com os seus lábios no dele. Ele sentiu uma reação incontrolável, desejou-a naquele momento, como a desejou quando a conhecera ainda jovem, num corpo tão atraente e sedutor quanto o corpo de Lívia. A reação instintiva de Roque foi recuar para não tocá-la. Mas, ela se aproximou dele e, daí em diante, nada mais poderia impedir aquele desfecho amoroso. Amaram-se, como se amavam, quando ela era viva. O corpo de Lívia serviu apenas como instrumento para a execução daquela mesma antiga sinfonia, que era tocada no corpo de Lídia.
               Os derradeiros suspiros de prazer vieram trazer a derradeira revelação, deixada para o final. Aquele era o centésimo dia, do prazo que recebeu para estender a sua permanência na terra.
            Roque não se conformou, abraçou-a, e disse que não a deixaria partir. Ela não podia ficar, e ele não queria separar-se dela nunca mais.
            A manhã seguinte encontrou-os com os rostos colados, os corpos abraçados e as mãos se tocando, numa derradeira carícia de amor.
            Os pais de Lívia olhavam indignados para os dois amantes. Acusações e ofensas atingiam a reputação de Roque, atribuindo-lhe toda sorte de desvios e suspeitas. A conclusão final foi que a pobre menina teria sido seduzida por aquele monstro, e convencida a participar de um pacto de morte. Todos lamentavam o trágico fim de uma jovem tão bonita e cheia de vida. Mas, poucos tinham algo a dizer sobre o velho professor. Era um esquisitão, que ficou ainda pior com a morte da mulher.
            Os vizinhos cobravam dos pais da moça, a responsabilidade por permitir que a filha ficasse trancada o dia todo de conversa fiada com o viúvo. Os pais se defendiam, alegando que era impossível segurar uma jovem de 15 anos, e que nessa idade já não se obedece mais às ordens dos pais.
            A discussão já ia tomando proporções maiores, quando uma forte rajada de vento deu prenúncios de uma tempestade daquelas que não poupam, nem os telhados, do granizo, nem os ouvidos, dos trovões.
            Os primeiros relâmpagos, seguidos de pedras de gelo, espantaram os mexericos, e deixaram os dois corpos abraçados, sob a vigilância de um soldado indiferente, que deveria zelar para que não se tocasse em nada, antes da perícia chegar.
            Os peritos, por mais que investigassem, jamais encontrariam a verdadeira causa da morte daquele casal apaixonado. As verdades humanas não passam de tristes mentiras, quando tentam desvendar os segredos do amor. Os homens vêem maldade, quando as tradições são negadas. E, nessas horas, choram pelos mortos, quando são os vivos que merecem os seus lamentos. E acabam por se contentar em atribuir o bem e o mal, a um Deus distante e a um Diabo sempre presente. Agindo assim, condenam os males que vêm para bem, e exaltam o bem que esconde o mal. Julgando e condenando inocentes, cada um satisfaz a sua mediocridade, em nome de Deus.
            Roque não tinha como se defender dos ataques à sua honra. Nem Lídia tinha como defendê-lo e nem Lívia como inocentá-lo.
            Quem se importa em se defender da maldade humana, quando ascende a outro plano, sem pecados, nem castigos?
            Aqueles que tanto insistem em comprovar verdades, quase sempre recaem no mesmo erro, de acreditar numa verdade única a qual todos têm de se submeter. Essas verdades inventadas pelo homem não passam de afirmativas inúteis, que cada qual busca comprovar do seu jeito.
O melhor mesmo, caro leitor, é cada qual acreditar na sua verdade e respeitar a dos outros. Queres prova do que te contei? Eu não prometi provas, apenas me comprometi a te contar uma história.
            Verdade ou mentira? Decide por ti, e a conclusão a que chegares, guarda para ti, sem tentar impingi-la aos outros. E que assim seja.
                                                           FIM    

domingo, 28 de outubro de 2012

QUE ASSIM SEJA - CAPÍTULO III



                                           CAPÍTULO III
            Roque chorou a morte da esposa, por semanas a fio. Não fosse a companhia de Lívia, a solidão seria insuportável.
            Lívia ficou de luto, calada no seu canto, por 7 dias e 7 noites. Terminada a missa de sétimo dia, a graça dos seus 15 anos voltou a tomar conta do seu rosto. Ela abraçou Roque, na porta da igreja, e disse-lhe com todo carinho: “Eu estou aqui”.
            Emocionados, eles se abraçaram, e Roque teve a sensação de que era a Lídia dos tempos de namoro, que estava ali envolvida no seu abraço. Por alguns instantes, ele não sentiu falta de Lídia.
            Desse dia em diante, Lívia ia regularmente visitar Roque, e ficavam conversando durante horas, perdendo a noção do tempo, até que o cansaço viesse adiar para o dia seguinte o resto do assunto, que parecia não ter fim.
            Roque sentia Lívia mais adulta, e com certos trejeitos maliciosos, que faziam com que ele viajasse ao passado, e lá se reencontrasse com a sua Lídia, meio Capitu, meio Lolita. Ele tratava de tirar essas fantasias da cabeça, com medo de que o levassem por um caminho arriscado e embaraçoso.
            Chegou um tempo, porém, que ele não mais conseguia evitar aquela atração exercida pela presença de Lívia. Cada dia que se passava, Lívia mais se parecia com Lídia. Até que não mais existia a Lívia, era Lídia que se apresentava à sua frente, repetindo os mesmos gestos e até as frases costumeiras, com que a esposa costumava brincar, fazendo um jogo de palavras, que só eles conheciam.
            O sorriso, o olhar, as brincadeiras, o modo carinhoso de tratá-lo, e até certos cacoetes surgiam como sinais daquela mística presença de Lídia, no corpo jovem e bonito de Lívia.
            A sensação inicial foi de temor, medo do desconhecido, um receio de estar lidando com uma força misteriosa, que podia ficar fora de controle. Havia um misto de medo e prazer e, por conveniência ou cautela, Roque decidiu observar um pouco mais, antes de tomar alguma atitude.
            Um acontecimento inusitado precipitou os acontecimentos, e obrigou-o a rever muitos dos seus conceitos religiosos, que, até então, permaneciam intocados, desde os seus tempos de quase seminarista.
            A essa altura, os pais de Lívia não escondiam a sua total desaprovação àqueles encontros diários, com a filha trancada, a tarde inteira, na casa do viúvo solitário. Os familiares de Roque e seus amigos, também, criticavam aquele relacionamento excessivamente íntimo, de um homem com a sua idade e uma menina de 15 anos. Trinta anos os separavam, enquanto afinidades e sentimentos aproximavam-nos cada vez mais.
            O tal acontecimento que precipitou tudo não foi um ato leviano da parte dele, nem um impulso malicioso de iniciativa dela. Tua mente, caro leitor, tão acostumada a esses escândalos do cotidiano, já deve estar dando tratos à bola, e imaginando um assédio sexual de um velho tarado, ou um irresistível ato de sedução de uma ninfeta desavergonhada. Nem uma coisa, nem outra.
            De repente, no meio de uma conversa, Lívia parou o que estava falando, olhou-o no fundo dos olhos, e sussurrou: “Roque, sou eu, Lídia, eu mesma, a sua Lídia”.
            Roque era católico convicto, não acreditava nessas coisas de mediunidade, vidência e reencarnação. Mas, as circunstâncias vinham obrigando-o a refletir como Lívia estava parecida com Lídia. E foi no meio de uma dessas reflexões que ele se viu surpreendido pela confissão de Lívia, ou de Lídia, ou quem quer que fosse.
            Antes que ele se recuperasse do golpe, Lívia assumiu por inteiro os gestos e até o timbre de voz de Lídia, passando a relatar todos os acontecimentos que se sucederam após o dia seguinte à sua morte.
            Poucos ficaram sabendo de um acidente de moto sofrido por Lívia, depois de ter velado o corpo de Lídia, por toda a madrugada. A caminho de casa, com os olhos inchados e ainda soluçando, ela não conseguiu desviar de um buraco, a moto derrapou e ela bateu com a cabeça no chão. A morte foi instantânea. A alma de Lívia deixou o corpo, enquanto a alma de Lídia tomou o seu lugar.
            Roque ouvia tudo isso em estado de choque.
            Lídia alternava o relato dos fatos, com alusões a segredos íntimos que só os dois tinham conhecimento. Assim, ela procurava testemunhos fiéis de sua presença no corpo de Lívia. As revelações não admitiam dúvidas, era ela, Roque já não tinha como não acreditar.
            Roque não se conteve, abraçou-a chorando e contou-lhe o quanto tinha sofrido. Disse-lhe que se não fosse a presença de Lívia, ele não teria resistido a tanto sofrimento.
            Ela corrigiu-o, declarando que nunca fora Lívia, que estivera ao seu lado, mas ela, o tempo todo era ela que lhe fizera companhia. Ela se viu impedida de contar a verdade, antes daquele momento. Mas, não sabia explicar o motivo dessa espera.
            Roque pedia mais detalhes, e ela reconheceu que também não saberia dizer-lhe o motivo de ter sido atraída para assumir o corpo de Lívia. Ela só tinha uma vaga recordação de perceber um sorriso irônico nos lábios de Lívia, quando abandonou o corpo, cedendo-lhe a vez.
            A sensação que Lídia tivera foi de haver recebido um tempo adicional de vida, para poder contar-lhe essas experiências misteriosas, e mudar suas crenças sobre a vida após a morte. Lívia e ela eram como irmãs, e suas almas, talvez, tivessem firmado um pacto antes de reencarnar, envolvendo essa missão.
            Quando assumiu o corpo de Lívia, ela ouviu uma voz que lhe dizia ter 100 dias para o cumprimento dessa tarefa. “Esse será o tempo que irás dispor, para convencer Roque a acreditar nos mistérios que envolvem a existência de um Deus verdadeiro, bem diferente de tudo que ele imagina”. A voz continuou a lhe falar: “Irás ensiná-lo a crer num conceito de divindade, em que Deus está presente em todas as criaturas humanas, mas bem distante de ter uma imagem semelhante à dos homens.” E a voz concluiu: “Ensina-o a crer na jornada da alma, que deve encarnar em corpos físicos, por sucessivas vidas, até atingir a perfeição. Quando ele, enfim, confessar sua crença nas tuas revelações, então, tu estarás livre para morrer, e ele para viver”.