sexta-feira, 23 de novembro de 2018

OS SEMEADORES DO AMANHÃ - CAPÍTULOS 13, 14 E 15

CAPÍTULO TREZE
Agora, vamos encontrar Gibran falando numa Audiência Pública, que trata da educação como meio de conquista social. Ele afirma para um público atento que, aquilo que for verdadeiro em qualquer região da Terra, o é também no resto do mundo.
A verdade, a sabedoria e a justiça não têm fronteiras e nem limites. Elas passeiam pelos quatro cantos da Terra, viajam aos confins do universo, ressoam em todas as galáxias e retornam ao ponto de partida, intactas, sem quaisquer correções.
Ele dizia com firmeza, por convicção, que essa é a verdade que vai prevalecer no ensino de amanhã. Não mais terá sentido a repetição de fórmulas viciadas, que representam pensamentos de alguns, mas que não servem para todos. Enquanto isso não for aceito, o ensino prosseguirá decadente e cada vez menos valorizado.
Os jovens não mais se amoldam às antigas formas, e, insubmissos, eles rejeitam os padrões arcaicos do ensino, e se manifestam, por rebeldia, protestando e destruindo. Empolgado, ele se inflamava ao exigir que cessasse essa cansativa e insistente transferência de valores e sucessão de enganos, que se tornou o ensino nos últimos tempos.
Gibran acusava a sociedade de estar condicionada a padrões que só interessam a uma pequena elite, mantendo a grande massa escravizada a mentiras, impedindo a maioria a ter acesso a uma vida plena e prazerosa.
Em suas palavras, ele desafiava os governantes a começar uma profunda reforma no ensino, abolindo-se, definitivamente, o hábito de só transferir conhecimentos, impostos como exatos e inquestionáveis, trocando-o por uma profunda busca das verdades eternas, que vinham sendo sufocadas pela inquisitora ciência materialista.
Ele afirmava enfático que tudo evolui no universo, sendo a criatura humana parte desse processo evolutivo, num processo interior, consciente ou não. Essa evolução tem sido responsável pela recusa das novas gerações em aceitar as escolas com seus métodos ultrapassados e inadequados. Era preciso mudar, e mudar já.
Enquanto não se dá a mudança, o nosso casal de semeadores segue semeando arquétipos futuristas em solo pedregoso. As sementes sutis e fluídicas não são bloqueadas, elas penetram nas rochas duras e começam um processo de germinação que amolecerá a pedra e permitirá o surgimento de embriões dos frutos do futuro.
Helga passava os mais criativos dons das artes e da natureza. Gibran estimulava novos comportamentos e projetos de educação inspirados numa sociedade idealista e justa. Eles semeavam a boa semente em solo fértil. As suas sementes não eram de hoje, eram as dos frutos de amanhã. Eles também não eram semeadores comuns, eles eram os semeadores do amanhã.

CAPÍTULO QUATORZE
Enquanto a maioria se lastima da vida, eles projetam o amanhã e semeiam. Muitos recorrem aos Bancos e Financiadores de Sonhos, eles apenas trabalham. A sociedade luta contra as poderosas forças da natureza, o casal respeita e confia nos Espíritos da Natureza.
Sementes de saúde, de educação, de justiça, de cultura, de amor, vão sendo espalhadas ao sabor do vento, adubadas pela matéria orgânica mental e germinam ao se integrar aos solos em que venham a repousar.
Só quem entende o poder dessas energias é quem confia no futuro da humanidade. Eu entendo e confio, e eles também, o que, de fato, é uma coisa só. Paradoxal, enigmático, um koan? Talvez, quem sabe!
Não é simples e nem fácil acompanhar certas imagens que procuramos projetar em suas telas mentais, algumas hão de dar nó na cabeça, como a do parágrafo anterior. Tentem relaxar e se deixem envolver pela essência mágica de nossas palavras que tudo fica bem mais fácil.
Comecem deixando de lado as exageradas racionalizações que prevalecem no mundo materialista que governa suas vidas. Se a dor de cabeça mesmo assim persistir, se recusem a consumir analgésicos e aprendam a dominá-la por sua força de vontade.
Pensem numa faixa de prata, envolvendo a cabeça, na altura da testa. Sintam a frieza do metal de encontro com a pele e pressionem mentalmente os pontos de dor. Imaginem a cabeça envolvida por ondas de energia de prata, inspirem profundamente e expirem com força, dando uma ordem mental para que a dor cesse imediatamente.
Não pense mais na dor, que ela logo desaparecerá em obediência à sua ordem. Se a dorzinha ainda persiste, repita o ritual, com paciência e maior convicção. Nunca duvide dos seus poderes, eles são ilimitados, é só acreditar.
Assim agem os nossos semeadores. Eles não temem forças contrárias, eles sabem trabalhar as suas energias de poder.
Bem que eles tentam passar seus ensinamentos para parentes e amigos. Eles ouvem e até entendem. Uma coisa, porém, é aceitar e outra é ser capaz de segui-las. Trocar remédios por práticas mentais é muito estranho, muito estranho mesmo! Se não dizem, pensam.
A maioria não acredita que possa existir poder maior do que seu remedinho de cabeceira. Assim, perdem excelente oportunidade para desenvolver suas faculdades psíquicas; esquecidas, desprezadas e tão subestimadas.
O nosso casal semeador faz discursos inflamados denunciando o engodo no tratamento das dores e doenças somente pela ingestão de remédios alopáticos. Eles esclarecem que, se as drogas químicas são chamadas de remédios, só pode ser porque não curam, e só servem para remediar.
Ninguém acredita que, se a causa não for removida, a dor que sumiu aqui vai reaparecer ali. Os médicos levam tanto tempo estudando para nos dizer exatamente o contrário, como evitar a crença em remédios?
E se eles receitam remédios para dores e doenças, só pode ser com a intenção de realizar a cura. Não é verdade? Não, não é. Ou melhor, sim é, mas não exatamente. Ou quem sabe, melhor seria dizer que eles pensam que é. É, é esta a resposta correta, eles pensam estar certos, porque foi assim que estudaram, foi isso que aprenderam.
Existem alguns médicos que já não pensam dessa forma, mas, ainda são muito poucos. Estes são os mais experientes que desenvolveram estudos e participaram de pesquisas que os levaram a tais conclusões. No Brasil, eles são poucos, mas, nos países mais desenvolvidos, nem tão poucos.
Eles fazem seus diagnósticos avaliando os aspectos emocionais e psicológicos dos pacientes, e não somente os sintomas físicos. Eles receitam práticas e terapias que curam a desarmonia entre corpo e alma. Assim pensava Hipócrates, o pai da medicina. Assim concluiu Samuel Hahnemann, o criador da homeopatia. Assim definia saúde, o Dr. Bach, descobridor das propriedades terapêuticas dos florais.

CAPÍTULO QUINZE
Achei por bem abrir um novo capítulo para dar um enfoque menos técnico, e mais comercial, sobre a medicina moderna. Fala-se da máfia de branco, para rotular os médicos que taxam seus serviços com preços exorbitantes. Eles são acusados de tratar pacientes como meros objetos, quase não conversando e despachando-os para máquinas que se encarregarão de diagnosticá-los com algum tipo de doença. Sim, não há como escapar de algum órgão em mau funcionamento. As máquinas modernas são detalhistas e não perdoam nada.
A humanidade está doente. Esta afirmação é encontrada em todos os estudos mais sérios dos órgãos mundiais de saúde. Se há tanto remédio, tantos equipamentos e avançadas técnicas de tratamento, como admitir esse estado caótico da saúde no mundo? E não vale falar dos povos miseráveis e famintos de algumas regiões da África e da Ásia.
Culpar os médicos por esse caos é insensato. Mas, absolvê-los de culpa, talvez não seja uma sentença justa. As causas podem ser encontradas no modo de vida da população mundial, em especial nos grandes centros urbanos. Nessas megalópoles, são assustadores os índices observados de doenças cardíacas, cânceres e outras doenças degenerativas, sem esquecer os distúrbios psicológicos que estão levando as sociedades à loucura.
Gibran costuma insistir que as doenças da humanidade têm suas origens no excesso de comida, e não na fome; no coquetel de remédios, e jamais na falta de medicamentos e na prevenção indiscriminada de doenças por meio de vacinas. Na visão oriental, a solução de qualquer problema não pode ser obtida nem com muito, nem com pouco, mas com o perfeito equilíbrio entre as partes envolvidas.
Pensando assim, Gibran, condenava tudo que era demais. Remédios e vacinas estavam sendo consumidos em excesso, por recomendação médica, e não por automedicação. As vacinas estão sendo aplicadas a esmo, com a intenção de barrar as doenças, com isso fragilizam o sistema imunológico.
Protegido contra umas doenças, o corpo humano, inflacionado de vacinas, se fragiliza para novas doenças. O sistema imunológico, aprisionado por tantas vacinas, abre a guarda e não produz os anticorpos necessários para evitar a invasão de novos vírus.
A medicina é voltada para a cura de doenças, e não para preveni-las. A cultura das vacinas foi introduzida pelos laboratórios internacionais com a cumplicidade do sistema financeiro e a conivência dos governantes e políticos de, praticamente, todas as nações. Gibran repetia o seu discurso sem descanso, sem dar trégua aos interessados ou atoleimados defensores dos métodos de prevenção por vacinas ou remédios.
Ele afirmava que um corpo sadio dispensa remédios. Se estes são consumidos, preventivos ou terapêuticos, o corpo ou está doente ou logo adoecerá. As universidades de medicina não ensinam os médicos a tratar da saúde, mas somente de doenças. Os efeitos não poderiam ser outros, vacinas provocando doenças, remédios alimentando doenças.
Gibran fazia ressalvas, lembrando que não se muda a mentalidade da humanidade antes que se passem algumas gerações. Enquanto isto, remediar e não curar seria inevitável. A verdadeira cura é um ato consciente que vem de dentro de cada criatura. A cura se dá de dentro para fora, com a mudança de mentalidade e de atitudes.
Gibran trouxe para esta vida muitos dos sábios conceitos aprendidos na última encarnação, herdando, do seu Mestre Espiritual, todos os conhecimentos ocultos a serem semeados na vida seguinte. Ele não se conformava com os desmandos sociais e políticos que predominavam em todas as nações. Ele se rebelava contra as absurdas leis que impunham as vontades de uns poucos sobre os direitos da maioria.
Ele acusava a insana busca do dinheiro e do prazer pela vida desregrada, cheia de vícios e desprovida de princípios éticos, que predominava na maioria, senão em quase totalidade das sociedades do planeta. Ele alertava que o consumismo desvairado era a maléfica consequência desse sistema monetarista, em que o dinheiro explicava e justificava tudo.
A humanidade pagará um preço muito caro por essas práticas materialistas que prevalecem na vida das famílias, tornando-as frustradas e fracassadas, vítimas da infelicidade imaginada e promovida, a partir de conceitos de competição e lucratividade. Ele escrevia livros, fazia palestras, para poucos, é verdade, e não se cansava de repetir os cuidados e atenções com o que ele chamava de efeito futuro.
O mundo moderno terá de reavaliar seus rumos, e retornar ao campo. As cidades serão forçadas a se esvaziar para sobreviver. As terras terão de ser reocupadas de forma pacífica, sem lutas ou invasões. A lavoura voltará a alimentar, aos poucos, mas de forma inexorável, a maior parte da população mundial, recuperando os espaços que tinham sido cedidos para a pecuária.
No futuro, adubos químicos, nem pensar! Agrotóxicos serão erradicados e considerados sérias ameaças para o futuro da humanidade. As pragas serão combatidas por métodos naturais com o reequilíbrio da cadeia ecológica. A agroindústria se transformará num empreendimento ambientalmente correto, unindo, de modo inteligente, a agricultura e a tecnologia.
Quando o assunto se voltava para a preservação da natureza, Helga não conseguia ficar calada. Ela acusava, provocava e condenava métodos, técnicas e resultados. “Tudo está errado”, afirmava com a sua convicção ambientalista.
Quem pensasse que eram arroubos emotivos de uma fanática desgovernada, logo mudava de ideia, diante dos argumentos calcados em teses de conceituados estudiosos da natureza como Burle Marx e Lutzenberger. Helga dominava a matéria, e poucos se habilitavam a contestá-la.
Os nossos semeadores trabalhavam em dupla, eram afinados no canto e ritmados nos passos. A abertura das sinfonias ecológicas costuma ficar a cargo de Gibran, mas os principais solos eram de responsabilidade de Helga. E, quando ela assumia o seu canto, todos a ouviam boquiabertos. Ela era perfeita!
Em casa, os dois recordavam suas lutas, e, às vezes, confundiam a vida de agora com a de outrora, os verdes campos da sua serra com as florestas das terras onde viveram na última vida. Ele a relembrava de suas vidas, do seu estudo e dos jardins de ervas que ela cuidava. E, assim, permaneciam por algumas horas, até que o sono chegasse.
Abraçados, eles sonhavam com o novo dia, que sempre lhes reservava boas surpresas. Dormiam juntos, sonhavam juntos e se amavam sempre, pois, para eles, a vida era um sonho de amor.


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

OS SEMEADORES DO AMANHÃ - CAPÍTULOS 11 E 12

CAPÍTULO ONZE
A humanidade desconhece a existência dos semeadores. E se os conhecesse pouco se importaria com eles. Nem os seus amigos mais próximos os reconhecem como semeadores, desconhecendo o papel que desempenham na evolução do planeta.
A massa tresloucada move-se de um lado para outro, sem saber de onde veio ou para onde vai. Fala-se de guerras, crises e epidemias. Comenta-se a decadência da civilização moderna, como se fosse algo alheio a cada um dos críticos. Ninguém assume responsabilidades, só se critica tudo e todos.
Uns afirmam, com absoluta isenção, que o mundo não tem mais jeito. Outros, que as coisas só vão mudar quando acontecer uma grande catástrofe. Guerras e cataclismos já foram anunciados, não aconteceram, mas, a vida prosseguiu sem que nada se alterasse diante das ameaças de fim do mundo.
Entre o medo do fim da vida e a esperança por novos tempos, a humanidade caminha quase que decepcionada com a ausência das desgraças contidas nas profecias catastróficas. Todos preocupados com o seu amanhã, negligenciam o hoje, como seus antepassados fizeram no longínquo ontem.
Plantavam más sementes, e queriam colher bons frutos. Não plantam, hoje, e esperam uma colheita farta, amanhã. Falam de crises, e põem as soluções nas mãos de estranhos. Censuram os governantes, e não conseguem pôr ordem em casa. Condenam epidemias, e são incapazes de manter saudáveis os seus pensamentos.
Decadente, a humanidade se debate aflita, temendo o final dos tempos, enquanto poucos se dispõem a mudar os hábitos. Tentam ser felizes buscando o progresso a qualquer preço, e encontram doenças e remédios.
Os laboratórios produzem remédios para os sadios adoecerem, e serem obrigados a consumir medicamentos, que só enfraquecem seus organismos já debilitados pela inércia provocada no sistema imunológico. Os Planos de Saúde são na verdade Planos de Doenças, pois não há nada que se pareça com planejamento para evitar doenças. O que existe mesmo é o tratamento de um número cada vez maior de doenças, com exames caríssimos, não cobertos pelos Planos. A nossa semeadora, sempre que se depara com situações do gênero, pergunta com ironia: “Quem está ganhando com isto?”.
Diante de uma humanidade doente, fragilizada pelo excessivo uso de remédios e vacinas, o nosso casal se recolhe para sorver o seu chá de ervas, e agradecer aos Mestres por mais um dia saudável. Dia que começa no coração da terra, passa pela alma das plantas e vibra na alma da gente.
O nosso casal de semeadores semeia a saúde com ervas, florais e homeopatia. Eles vivem aconselhando amigos e conhecidos a buscar, dentro de si, as fontes de cura. Antes de ir ao médico, é muito saudável procurar entender o que está ocorrendo com seus corpos. Eles recomendam que se procure relembrar os últimos acontecimentos, nos quais estarão as pistas para as doenças.
A saúde, dizem eles, é algo muito valioso para ser entregue de mão beijada, nas mãos de estranhos. A maioria não entende bem onde eles querem chegar, apesar de quase todos concordarem.
As pessoas admitem que o que eles dizem tem sentido, mas, difícil mesmo é se controlar, na hora da dor. Sem pensar duas vezes, corre-se para o médico, se faz exames e se toma remédios.
Os exames dão os diagnósticos, o que os médicos modernos, quase nunca, são capazes. Os remédios mascaram as doenças, fazendo os sintomas desaparecer, como se fizessem a cura. Como se desliga um alarme, sem saber as causas, os sintomas são desligados, sem saber as origens.
Os pacientes ficam felizes porque não sentem mais dor, e os médicos lavam as mãos, transferindo as responsabilidades para os exames e remédios. Até mais tarde, quando voltam a se encontrar, médico e paciente, para curar uma nova dor, em outro local do corpo. As antigas causas voltam a disparar o alarme, avisando que não foram eliminadas, apenas mudaram de lugar.
Mais uma vez, exames e remédios, ou até quem sabe uma cirurgia. Corta-se e retira-se um órgão, com a mesma sem cerimônia com que se invadiu o corpo do paciente com uma química inibidora, que encobre, mas não cura. E a vida fica fora de controle, entregue a quem passa a ditar as normas e a assumir o futuro do paciente.
O doutor foi tão bonzinho, e afinal ele estudou para cuidar das doenças! Mas, não aprendeu a lidar com a saúde. A mente é a força vital. Tudo começa na mente, passa pelo emocional, até se manifestar no corpo físico.
A medicina costuma aceitar a influência do físico na mente, mas, muitos médicos ainda relutam em admitir o inverso. É ainda a teimosa ciência materialista, lutando para se manter viva.
Gibran e Helga empregavam o poder mental para suas curas. É claro que eles tinham seus problemas de saúde! A diferença é que eles sabiam que suas origens eram psicoemocionais. Quando surgia um pequeno sintoma, eles percebiam que acontecera alguma distração no processo de policiar seus pensamentos e emoções.
A visualização de imagens curativas harmonizava as energias que estavam em desequilíbrio. Com cores, luz e imagens, eles geravam processos mentais de cura, e usavam afirmativas para condensar energias curativas em torno da região atingida.
A saúde para eles, porém, começava nos hábitos alimentares e na relação perfeita com a natureza. Eles sabiam que a saúde dependia do consumo equilibrado de verduras, legumes, raízes, grãos, fibras e frutas. Não comiam carne, nem vermelha, nem de nenhuma outra cor.
Atualizados com a forma de criação para o abate, incluindo estímulos artificiais, eles viviam alertando sobre os sérios riscos de saúde com o consumo de carne vermelha e aves. Os mares poluídos desaconselhavam ingestão de peixes.
Aos que moravam nas grandes cidades, eles alertavam sobre a vida estressante, um veneno que mata com o tempo.
Os nossos semeadores acompanhavam a desgraça que tomava conta da humanidade. As doenças se sucediam, com nomes novos e causas antigas. Os organismos se debilitavam pela poluição, estresse e excesso de remédios, fragilizando o sistema imunológico.
As drogas eram ingeridas como balinhas inocentes, a qualquer incômodo ou prevenção. Aspirinas, calmantes, estimulantes eram inibidores das reações naturais do organismo. As doenças surgiam como efeitos dos tratamentos de saúde. O organismo se enfraquecia com os tônicos modernos. Os anticorpos se inibiam pelo uso excessivo de drogas.
O casal sabia que a medicina, lá no alto do seu pedestal, não sabia como evitar os males, só sabendo combatê-los. A cada combate, um efeito colateral, pior do que a doença. Cortava-se e operava-se, por qualquer motivo. Alguns poucos médicos arriscavam suas imagens perante seus pares, para provar que era preciso considerar outros agentes não físicos, no diagnóstico das doenças.
Os pensamentos, as palavras e as visualizações dos nossos semeadores recriavam arquétipos, que serviriam para aqueles que os acessassem em busca de inovações nos métodos de cura. As novas sementes mentais eram plantadas e replantadas. Os novos conceitos eram absorvidos e ajudavam a mudar a mentalidade das pessoas.
Diante da televisão, eles balançavam a cabeça, discordando dos rumos estabelecidos pelas elites do poder que ocupavam os espaços pagos na mídia. Eles repetiam mentalmente o que desejavam que todos soubessem – a saúde começa dentro de cada um de nós, e só existe enquanto cremos possuí-la, e acreditarmos que possamos dispor dela por nossa exclusiva vontade.
Eles repetiam essa afirmativa, e percebiam que uma forte energia envolvia-os e se irradiava para locais distantes, onde seria absorvida por muitos que buscavam respostas para seus questionamentos de saúde.
Desligavam a televisão, se davam por satisfeitos e iam deitar. No silêncio da noite, suas palavras ecoavam à distância e semeavam os solos férteis. Respeitemos seus sonhos, e deixemos que durmam em paz.
O saco de sementes, a cada fim de noite, ficava mais leve. Novas terras foram semeadas. Os frutos viriam com o tempo. Agora, é tempo de descansar.
CAPÍTULO DOZE
A nossa semeadora é imprevisível. É comum, ela atingir um alvo que nem ela visava atingir. É o poder da sua intuição aliado à sua força de vontade, e que se alimentam do seu senso de iniciativa.
Lá vai ela em direção à escola do bairro. O que está pretendendo agora? A diretora anda desanimada com tantos problemas causados pelos alunos. Os professores, às vezes, pensam em entregar os pontos.
Ela ouve que a escola precisa fazer obras que melhor atendam as reivindicações dos jovens, mas nunca há verba. Ela dá opiniões, tenta levantar o ânimo da diretora e volta para casa inconformada com o que viu e ouviu.
Os alunos reclamavam que a escola não oferece atrativos que despertem seus interesses. A diretora acusa os alunos de indisciplinados, mal educados e até violentos. A escola pune, o aluno se rebela. A escola ameaça, o aluno desafia. A escola suspende ou expulsa, o aluno troca de escola.
Os que saem por insubordinação, entram na outra escola. De lá, vêm alunos em situação semelhante, que entram aqui, e o rodízio se sucede, não resolvendo o problema. Nada é feito para a correção das causas. E o ensino, que devia ser o foco central, acaba ficando em segundo plano.
Gibran e Helga criticam o método arcaico do ensino, e recomendam os métodos de Rudolf Steiner, que vinham tendo êxito no mundo inteiro. Ninguém sabe do que eles estão falando, ou já ouviram, mas não fazem ideia do que sejam os tais métodos.
Crianças de alto grau de percepção mental estão nascendo, demonstrando possuir muito mais conhecimentos do que pais e professores. Essas crianças estão à frente do seu tempo. Elas já nascem sabendo o que estão tentando ensinar. E o pior é que o método é inadequado e os ensinamentos ultrapassados.
As escolas insistem em usar critérios e ações que não despertam qualquer interesse nesses jovens. Eles não têm o que fazer nessas escolas. Eles sabem mais que os professores, ou são bem mais inteligentes. As matérias são desinteressantes ou simplesmente inúteis. Quem há de se interessar pelas aulas?
A juventude está cansada dessas verdades fabricadas em laboratório para serem engolidas nas salas de aulas, ditadas por um professor despreparado para lidar com crianças que já nascem sabendo.
O casal vivia repetindo que já era hora da informação ser substituída pelo despertar espontâneo da sabedoria que todos trazemos dentro de nós. Na Antiga Grécia, os filósofos, sabendo disto, reuniam os discípulos e, no lugar de verdades fabricadas, provocavam-nos com sucessivas perguntas. De pergunta em pergunta, as verdades adormecidas iam aflorando, com respostas, tão espontâneas quanto sábias.
A sociedade teme as manifestações espontâneas, que promovem verdades fora do controle da elite do poder. Essas fogem do controle, por serem imprevisíveis. Naquela época antiga, os filósofos gregos também eram perseguidos sob a acusação de seduzir a juventude com falsas verdades. Perseguidos e acusados de induzir os jovens a rebeliões e confrontos, os filósofos eram condenados ao silêncio, ou, como ocorreu com Sócrates, à morte.
Esta história de segurança nacional é antiga, existindo desde o início dos tempos. Sob a alegação de proteger o povo, uns poucos se arvoram de donos da verdade e de protetores da raça. Jamais o povo armado e nas ruas foi a maior ameaça ao autoritarismo, e sim a cultura.
Nenhum governo suporta um povo culto e consciente do seu poder pessoal. Contra armas, o exército, contra a cultura, nada, além do livre direito de expressão. Mentes sábias cultuam a liberdade e não são subjugadas pela força. Gandhi deu o maior exemplo desta verdade, convencendo os ingleses que as armas seriam inúteis, diante da mensagem que ele passara para o povo indiano.
Gibran alertava os órgãos públicos que ele não se referia à educação. Ele distinguia a educação da cultura, atribuindo, à educação, a coleta de informações externas, e à cultura, o despertar dos conhecimentos interiores, frutos do espírito que habita tudo que existe no universo.
Pitágoras ensinava a seus seguidores que todos podem ter acesso à sabedoria universal, quando se é capaz de manter conexão com seu poder interior. O acesso a esse poder exige certo treinamento e concentração, o que era ensinado em sua Escola de Mistérios.
Sabedoria responde às perguntas sobre a vida e a natureza, e isto era considerado a ciência oculta ou espiritual. As questões relacionadas ao mundo físico eram respondidas pela ciência física, e, esta, sim, exigia informações externas.
Gibran tentava explicar que os métodos empregados se restringiam às ciências físicas, desprezando as ciências espirituais. Ele citava a física quântica, que poucos conheciam, presos que estavam à física newtoniana, ótima para entender os fenômenos físicos, mas inadequada para tratar de outras dimensões além da terceira.
Os ouvintes ficavam sem saber o que dizer. Física quântica era o mesmo que falar grego, e as dimensões além da terceira, estavam fora da realidade de qualquer educador. A alegação é que o educador ganhava muito pouco para se preocupar com essas metodologias que fugiam à regra.
Cultura, senhores, cultura, e não a educação salvará esta humanidade! A verdade está contida na sabedoria, e não no excesso de informações. A maioria delas é fabricada com o interesse de desviar a atenção da sociedade para revelações que não são importantes para a expansão da consciência.
Os mais bem-educados são os mais bem preparados para projetar grandes planos de corrupção. Não são os pobres e ignorantes que assaltam os cofres públicos, mas os doutores, os que possuem diplomas nos seus históricos escolares.
A educação sem cultura é uma arma nas mãos dos poderosos. Educação, simplesmente, não traz a paz e o progresso a uma nação. Cultura inclui estudos sobre ética, moral, filosofia, história dos povos, física quântica, literatura, música e artes. E, para ficar completa, a cultura de qualquer nação precisa unir ciência e espiritualidade, como fizeram grandes civilizações no passado distante.
Gibran insistia na antroposofia, mas poucos tinham ouvido falar dessa técnica educacional. E, ninguém estava a fim de perder seu tempo em pesquisar do que se tratava. Assim caminhava a humanidade, reclamando de tudo, mas ninguém querendo fazer a sua parte.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

OS SEMEADORES DO AMANHÃ - CAPÍTULOS 9 E 10

CAPÍTULO NOVE
O povo perguntava como seria o progresso anunciado pelo casal? Como definir esse progresso, diante de tantas carências presentes nos tempos de hoje? O progresso seria o fator saciador da fome do povo? Ou o doador das terras, das casas e dos empregos?
A sociedade deveria progredir para possuir ou conquistar para progredir? O progresso vem primeiro e só depois as conquistas sociais? É assim mesmo? Então, voltemos à pergunta inicial do povo, e tentemos entender o progresso? Se formos capazes de entendê-lo, poderemos vislumbrar as conquistas sociais. Caso contrário, passaremos a vida procurando o caminho para as sonhadas igualdades sociais, sem jamais encontrá-lo.
De onde vem o progresso? O que será preciso para atraí-lo? As pessoas ficam seguindo as notícias, como mariposas em volta da luz. Elas sabem que existe, mas não conseguem alcançar o que procuram, sem sucumbir antes de usufruir o seu conteúdo.
Aos poucos, a meta ambicionada vai sendo atingida, sem que se perceba que ela é o ideal sonhado. O processo é longo e dinâmico. A meta se transforma, à medida que dela nos aproximamos. Nós queremos sempre mais e mais, e quando alcançamos o que almejávamos, já não é mais aquilo que estamos querendo.
No meio do processo, surgem as interferências comerciais. Novas projeções são criadas para satisfazer interesses, mas são maquiadas como novos sonhos de progresso. Terras para todos que não têm. Casa própria para quem mora de aluguel. Emprego para todos, com altos salários. Escola de alta qualidade, saúde de verdade, tudo sem custo, e sem aumento de impostos.
Poderíamos ir desfilando a infinidade de sonhos que são colocados na cabeça do povo. Promessas e mentiras que custam caro, pois são promovidas pelos meios de comunicação que cobram muito dinheiro por elas. Quem paga? Os interessados em enganar o povo e se beneficiar da ingenuidade e ignorância das pessoas.
Os sonhos são vendidos sem custo, como se fosse possível adquirir direitos sem deveres. O discurso é sempre o mesmo, que o pobre já foi muito sacrificado, e não pode continuar pagando a conta. Só não é dito quem vai pagar.
O mais rico não abre mão de manter o mais pobre sob o seu domínio. O pobre sonha, um dia, reverter esta situação, assumindo o lugar do mais rico, e dominando os outros. E assim caminha a humanidade, sem sair da zona de conflito.
Os nossos semeadores ficavam horrorizados quando ouviam as promessas dos políticos de um progresso que traria fartura e riqueza para todos. Quem, como, quando, onde? As perguntas não se podiam calar. As respostas não eram ouvidas. Promessas, só promessas.
O povo cobrava casas populares, os semeadores defendiam o direito de cada qual poder construir a sua própria casa, com recursos próprios obtidos com o seu trabalho. Ninguém conseguia entendê-los, quando diziam que não se deve receber nada de graça. Eles tentavam explicar que tudo tem um preço, e quando não se declara claramente o preço do que se recebe, a cobrança virá de uma forma ilícita, ou o preço será muito maior do que se possa imaginar.
Gibran se exaltava quando defendia suas ideias contra as casas populares. Ele as considerava estigmas sociais, que discriminavam os seus moradores e, não raro, privilegiavam uma meia dúzia de apaniguados.
Da mesma forma, ele esbravejava contra a distribuição de terras, sempre privilegiando os infratores e os mais agressivos, que usavam de todos os artifícios violentos para invadir propriedades, armados e dispostos a atacar quem se pusesse à sua frente. Os mais mansos e pacatos, mesmo que mais necessitados, eram esquecidos e deixados na miséria. Esses não davam notícia e não promoviam palanques para os aproveitadores, sempre em busca de voto.
Gibran defendia reformar casas já existentes, no lugar de construir aglomerados de casinhas padronizadas, batizadas de populares. Ele entendia que o pobre que já tem a sua casa construída em terreno de sua propriedade, só precisa de um financiamento a juros baixos e de longo prazo, para ter a casa do seu jeito, uma casa com a cara do dono.
Por que desmatar uma área, quase sempre em encosta de morro, o que ainda é mais grave, para construir um ajuntamento de casas, coladas uma na outra? Que situação deprimente, dizia ele, ser discriminado socialmente como morador de casa popular!
Os custos das reformas seriam muito inferiores aos gastos com criação de loteamentos e de infraestruturas caras, como acontece com as casas populares. Os benefícios sociais seriam incomparavelmente maiores, por não ser necessário remover famílias para lugares distantes de seus amigos e parentes. Sem contar o fato de que não haveria a discriminação de pobreza vitalícia, por residir em conjuntos construídos para pobres.
Helga interferia alegando que o povo devia pedir trabalho, e não emprego. Mas, esse discurso não agradava muito, pois a maioria não quer trabalho, mas ganhar dinheiro. Emprego público é melhor ainda, pois ninguém manda em ninguém.
Helga lembrava aos que pediam mais indústrias, que empregos nessas grandes empresas são caminhos de mão dupla – festa na inauguração da fábrica, demissão em massa, na primeira crise. O povo não estava nem aí para as crises, só pensava em aproveitar as vagas iniciais. Dali em diante, era ver para crer.
Gibran voltava a insistir no papel do governante, que, como ele costumava dizer, é eleito para administrar recursos que permitam aos governados progredir com suas vocações e talentos. A distorção veio com os vícios administrativos, em que os candidatos prometem empresas e parques industriais, como geradores de empregos.
O que ninguém diz é que as indústrias modernas estão contratando cada vez menos operários, pois, são as máquinas e os computadores que se encarregam de quase tudo. No futuro, as grandes indústrias serão as que contratarão menos empregados, produzindo e faturando mais, e desempregando os iludidos que defenderam e aplaudiram suas chegadas às suas cidades.
O trabalho de fábrica, quando exige mão de obra humana, é quase sempre repetitivo, sendo poucos os operários mais qualificados. Quem trabalha para si é o dono de sua vida, é livre para criar. O empregado é submisso às ordens do patrão, e está sempre sujeito a demissões.
Ninguém pode negar a importância dos patrões para seus empregados, assim como deles para seus patrões. Quantos reconhecem essa dependência? Na verdade, são poucos, muito poucos, os patrões que se dão conta de que devem promover uma harmônica relação entre patrão e empregado. Em sua maioria, eles são ambiciosos e egoístas, e quanto maior a empresa, mais se confirma essa afirmação. Os empregados, também ambiciosos, e só pensando em si, não são dedicados e fiéis às suas empresas.
O sindicato de empregados alimenta as insatisfações e põe lenha na fogueira, ou nas caldeiras. Os sindicatos patronais subvertem o sistema, omitindo informações, invertendo números e pondo a sociedade sob a permanente ameaça de crises e demissões. Os governos, comprometidos política e economicamente com as elites do poder acabam submetendo-se a elas, permitindo os constantes ciclos caóticos da humanidade.


CAPÍTULO DEZ
Gibran e Helga não se conformavam com tanta politicagem e comprometimentos, reconhecidos por políticos locais como tramoias. Eles se lastimavam e acusavam os governantes de serem responsáveis pelo que de pior estava acontecendo ao planeta e à humanidade. Eles sabiam que não era justo acusar somente os que governam, e deixar de fora os governados. No fundo, era tudo farinha do mesmo saco.
Sem vontade própria, manipulado pelas elites e enganado pelos meios de comunicação, o trabalhador é massa de manobra dos governantes e de seus financiadores políticos, das associações da classe empresarial e dos seus próprios sindicatos.
Partidos políticos iludem os trabalhadores e convencem-nos que são melhores que os outros. Todos são hipócritas, e são desmascarados assim que assumem o poder. Antes, durante a campanha, sobram as promessas, depois de eleitos, falta tudo e não há verba para cumprir o prometido. Mentiras, só mentiras!
O povo desperdiça, e falta o essencial. Devasta o local onde ergue sua casa, e a condição ambiental vai de mal a pior. O lixo é jogado nas ruas, e reclama-se da prefeitura. Concentra-se nos grandes centros, e protesta-se contra a qualidade de vida nas cidades.
Os governantes fazem vistas grossas às atitudes desleixadas do seu povo, e assim garantem a reeleição. Não se controlam as migrações, porque se perde voto. Não se planeja o desenvolvimento urbano das cidades, pois se perde os currais eleitorais.
Os nossos semeadores visitavam a prefeitura, e tentavam convencer os administradores a pôr ordem na casa. Não tinham verba, ou não tinham caráter, não havia diferença. Eles voltavam para casa, e mais uma vez indignados, armavam seus argumentos para o dia seguinte.
Pobres semeadores, lutando contra solos estéreis. Tristes sementes, sofrendo o ataque de destrutivas pragas. Pobres solos e pobres pragas, dificultando e predando sua própria razão de ser. Povo alienado e governantes atarantados, todos correndo em busca do progresso, enquanto vão destruindo o que seus antepassados deixaram pronto.
O nosso casal não esmorece, e repete, dia a dia, o seu discurso por esses caminhos hostis. Nessas caminhadas, as hostilidades são respondidas com compreensão e as resistências com gentil paciência.
Helga, às vezes, se irrita e perde a calma, se o tema é lixo e devastação das matas. Gibran perde o bom humor com a manipulação dos pobres inocentes iludidos por eternas promessas.
Nada os abala de verdade, a ponto de fazê-los desistir. Eles sentem que um dever assumido com a vida precisa ser respeitado. Alguma coisa parece lembrá-los, a todo instante, que eles estão em missão, compromisso assumido num passado distante, que eles não sabem quando.
Quando pensam que ela desistiu, ela aparece tentando convencer as pessoas a plantar e a cuidar de seus jardins. Revistas debaixo do braço, argumentos na ponta da língua, ela folheia as seções de casa e jardim. As pessoas balançam a cabeça concordando, sem saber com o quê. Elas estão seduzidas pela matéria, e plantas, flores e jardins não fazem parte do tesouro que perseguem em busca de riquezas.
De casa em casa, de esquina em esquina, o casal semeador vai lançando ao vento suas caprichosas sementes, que insistem em cair entre os espinhos ou no meio das pedras. Os dois passam o dia falando, e voltam para casa falando.
Tolos são os que acreditam que eles se cansarão de pregar no deserto, e desistirão da missão. Quem pensa assim, não sabe do que um semeador é capaz, quando traz nas costas o saco de sementes sagradas, que frutificarão nos novos tempos.






sexta-feira, 2 de novembro de 2018

OS SEMEADORES DO AMANHÃ - CAPÍTULOS DE 6 A 8

CAPÍTULO SEIS
Em suas sacolas de sementes, nossos semeadores conduziam soluções simples para velhos e intermináveis problemas. Eles diziam que os dias de amanhã ressuscitariam a simplicidade. A tecnologia será desmitificada, e o que se faz com muitos milhões, amanhã será realizado com alguns míseros centavos. Os tecnocratas perderão seus privilégios, e todos terão acesso às novas técnicas. A humanidade, enfim, entenderá que máquinas são criadas para servir o homem, e nunca para explorá-lo.
A semeadura, no entanto, ainda encontra resistências. O solo não está fértil o bastante para as novas sementes. O nosso bravo casal não esmorece e prossegue no seu trabalho de semear hoje os frutos do amanhã.
Lá estão eles, preparando as mudas que serão usadas para reflorestar uma pequena área devastada. Muitos cruzam os braços diante da devastação criminosa das florestas. O nosso casal planta as mudas, uma a uma, de forma incansável e entusiástica.
Para muitos, eles não passam de loucos, para nós, eles estão fazendo a parte deles. Se parecem loucos, é porque são diferentes da grande maioria. E, num mundo de tantas loucuras, são os nossos loucos os mais lúcidos. 
 

CAPÍTULO SETE
Enquanto muitos se preocupam com os rituais nos templos, o nosso casal de semeadores celebra na natureza, o verdadeiro cerimonial sagrado. Ama a tua Mãe-Terra e o teu Pai-Céu que te tornarás o Filho-Filha amado e amante, o Cristo renascido e não reconhecido.
O tempo não para, e Gibran e Helga prosseguem em seu trabalho de semeadura, recriando arquétipos e descerrando as cortinas do amanhã. Eles mal se dão conta do que falam ou pensam deles, eles só trabalham, como se sua obra estivesse atrasada e tivesse que ser acelerada.
Nós, e só nós, que a tudo vemos, é que podemos reconhecer o ritual celebrado, que vai atuar em elevados níveis da consciência planetária.


CAPÍTULO OITO
Crises, as eternas e repetitivas crises vêm e vão. Antes era a inflação, agora o consumo. Desempregos, antes, e admissão em massa, depois. Compras se reduzem e, logo, os novos picos de consumo aceleram as contratações. A bolsa sobe, e todos compram, a bolsa desce, e todos vendem. Os mais espertos compram e vendem antes dos demais, e ganham mais.
Há de existir crises, para alimentar a hipocondria social do povo. O desemprego, a casa própria, os sem-terra à cata dela, os sem-teto invadindo prédios inacabados ou interditados. Os gays protestam, as mulheres são assediadas, os machos agridem, uns apoiam, outros condenam.
Ideias são aceitas, nem é preciso ser muito criativo, basta criar fantasmas. E depois de criados, soltá-los nas sombras da noite escura de almas assustadas e desarmadas. A todo instante, se renovam os boatos e as ameaças de alguma tragédia, que um boateiro retirou do fundo da cartola. Povo assustado, boatos valorizados e poderosos entesourados.
No meio disso tudo, lá estão os nossos semeadores, abastecendo o povo com as armas da revolução do amanhã. Quem esperava por metralhadoras, fuzis e canhões, se surpreende com as inocentes bombinhas que são detonadas pelos nossos agitadores culturais.
Não esperem por indústrias para dar emprego ao povo, que vão se cansar de tanto esperar. Casas populares são engodos políticos para distrair o povo, que é atirado de um canto para outro, sem poder escolher seu destino. As terras cobradas pelos sem-terra são conquistadas, não por quem tem direito, mas pelos ativistas mais violentos e agressivos. E, o enorme grupo de sem-justiça, sem-cultura, sem-palavra, sem-especialização, como ficam eles? Não ficam.
Seria sensato induzi-los a invadir e ocupar os objetos do desejo de cada um? Violência gerando violência, para contrabalançar com a mentira gerando mentira. As perguntas se sucediam na boca dos nossos semeadores, e ficavam sem respostas.
Eles mesmos respondiam as questões por eles propostas. O desemprego é sinal dos novos tempos, com máquinas no lugar do homem. Estamos no limiar da contra-Revolução Industrial, com operários retornando aos campos e fábricas informatizando-se ou fechando. A mão de obra humana sendo substituída pela mão de obra informatizada.
O trabalho tomará o lugar do emprego. Carteira de trabalho assinada se tornará pura demagogia política, de quem não está nem aí para as consequências das onerações das micro e pequenas empresas.
O homem deixará de ser o robô que se transformou com a Revolução Industrial, voltando às suas habilidades artesanais, como respeitável criador de obras. As mentes se tornarão mais criativas, e menos suscetíveis a serem enganadas. Cada obra será assinada identificando o artista criador. Máquinas continuarão produzindo produtos sem alma, o homem criará obras com vida.
As chaminés não mais despejarão fumaça negra sobre as cidades. O mundo terá de mudar por bem ou por mal. Se não for espontaneamente, será por doenças e desgraças. A poluição será erradicada, ou populações serão exterminadas.
O futuro não admitirá poluição de espécie alguma, nem do ar, nem do rio e nem do mar. Computadores se ocuparão da purificação da vida na Terra. Cada família encontrará meios decentes de sobrevivência, sem depender de esmolas dos governos.
O empregado submisso a horários, marcando o ponto sob a vigilância prepotente dos patrões, desaparecerá, dando lugar a seres independentes e donos dos seus próprios negócios. Os negócios de família voltarão a florescer e se tornarão microempresas rentáveis e autossustentáveis.
Gibran se entusiasmava, ao falar dos campos novamente ocupados, não por lavradores pobres e desnutridos, mas, por famílias de classe média que, desiludidas com as grandes cidades, retornarão para as terras, de onde seus ancestrais saíram cheios de esperanças e ilusões. Os conquistadores das terras não mais serão os violentos, mas os competentes.
As terras passarão a ser tratadas com amor e respeito, não mais invadidas por serras elétricas desmatando florestas, nem por máquinas agredindo o solo sagrado. As áreas plantadas respeitarão as matas nativas, como o homem branco deveria ter feito com as terras indígenas. A sabedoria triunfará sobre a riqueza. Com o triunfo dos sábios, a justiça redistribuirá os tesouros da Terra.
Este era o teor do discurso do nosso casal de semeadores, semeando as boas sementes e confundindo os ouvintes. Ninguém conseguia entender como as sementes frutificariam no amanhã. Não condenamos os ignorantes, afinal de contas, as sementes não eram deste planeta. Elas vieram de muito longe através dos tempos, para serem semeadas no mundo de hoje e darem frutos no de amanhã.
Como cobrar entendimento dos pobres coitados que não entendiam nada, se os frutos talvez só venham a nascer daqui a décadas, séculos ou milênios? Ah, o tempo, como é difícil falar do tempo!
A plateia ouvia os semeadores, e pensava como seria possível viver sem a terra, sem casa, sem emprego. Afinal, a maioria era formada de quem é sem quase tudo. Pobre humanidade, quanto sofrimento diante das falsas formas, em desprezo das verdadeiras essências!
Gibran dá a mão a Helga, pede licença e, os dois se retiram calados, e se recolhem a seu templo. Ali, a vida flui sem ouro e nem hora. O tempo não influi e nem contribui. Lá não existe nem patrão e nem padrão.
No mundo dos semeadores, tudo se restaura e tudo se reconstrói, e nada se perde. As sementes das antigas civilizações dos deuses são resgatadas na linha do tempo e servem como as boas sementes para os tempos futuros.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

OS SEMEADORES DO AMANHÃ - CAPÍTULOS DE 1 A 5

Aos que acompanharam com vivo interesse, a publicação de Memórias de um Profeta, ofereço, agora, a sequência da história de Gibran e Helga, a que denominei de Os Semeadores do Amanhã.
Boa leitura, é o que desejo a todos.

OS SEMEADORES DO AMANHÃ
“Eis que um semeador saiu a semear. Quando semeava, uma parte da semente caiu ao longo do caminho e vieram as aves do céu e comeram-na. Outra, porém, caiu em lugar pedregoso, onde não havia muita terra; logo nasceu, porque não tinha profundidade de terra. Mas, saindo o sol, queimou-se; porque não tinha raiz, secou. Outra caiu entre os espinhos; cresceram os espinhos e a sufocaram. Outra, enfim, caiu em boa terra e frutificou …”.
(Evangelho Segundo Mateus, 13, 3-9).


CAPÍTULO UM
Egressos de um passado distante, eles surgem, sem serem anunciados, para semear o futuro.
Rio de Janeiro. 1990. Gibran e Helga.
A história começa na cidade do Rio de Janeiro, na década de 90. O cenário principal logo se transporta para uma cidade qualquer, no interior do Brasil, nem Norte e nem Sul.
Os dois cresceram, estudaram, amaram e se casaram. Eles não eram comuns, divergiam das atitudes e costumes da sua época. Esquisitos, assim eles se definiam, quando queriam justificar o seu modo de vida. No início, nem tanto; mais tarde, não havia como negar.
Os conceitos e costumes que costumavam defender podiam dar a impressão de que fossem meio loucos. De louco, no entanto, eles não tinham nada. Eram duas almas muito à frente do seu tempo.
Conta-nos a história que, num certo momento, sem que nem eles saibam o porquê, foram levados pelo destino para uma pequena cidade. E foi lá que a verdadeira missão do casal começou.
Antes disso, nos dois anos que antecederam a mudança, muitos sinais misteriosos e poucas explicações. Buscas desenfreadas por respostas levaram-nos a palestras e estudos, que no lugar de soluções trouxeram novas questões em suas mentes.
Uma conspiração do universo tirou-os, de repente, da vida centrada que levavam, e arrastou-os para experiências místicas e mistérios desconexos, que viraram suas vidas de ponta-cabeça.
No Rio de Janeiro, eles não mais se sentiam à vontade. O rumo foi traçado pelo destino, e a bússola espiritual apontou que caminho tomar. Eles partiram numa viagem sem volta, em busca de suas missões.
A motivação alegada teria sido o desejo de uma vida simples, sem as ambições e os vícios das grandes cidades. A verdadeira razão ficou preservada com os dois, até que, tempos mais tarde, contaram a verdade.
Conscientes das dificuldades dos primeiros anos, eles de nada reclamavam. Aceitavam os apertos financeiros e as diferenças socioculturais de seus novos vizinhos como experiências indispensáveis à evolução de suas almas.
Amavam a terra como a um ser vivo, e tratavam as árvores e os animais como irmãos. Admiravam as forças da natureza e cultuavam o vento como mensageiro dos deuses. Agiam como guardiões das matas, e vigilantes em defesa da preservação das árvores e da liberdade das aves.
Moravam num sítio com vasta área de pasto, que pretendiam reflorestar e transformar em reserva florestal de propriedade privada. O meio ambiente era o foco central de suas atenções. Viviam repetindo os alertas sobre o aumento da temperatura e o risco da escassez de água potável no planeta.
Seus discursos ambientais eram fortes, e convenciam facilmente os que os ouviam. Alguns, talvez, os achassem meio exagerados, mas não se atreviam a contestá-los. Havia algo de profético em seus alertas, como se houvessem recebido alguma mensagem sobre o futuro da Terra.
Helga tinha como hábito citar notícias dos telejornais, com uma interpretação toda pessoal, o que dava enorme consistência aos seus argumentos. Gibran preferia um discurso bem mais político e social, e talvez espiritual, mas, não menos lógico e consistente. Eles reconheciam que estavam no mundo, mas não eram do mundo.
A tarefa deles era árdua e quase solitária. Mudar a consciência das pessoas não é um desafio fácil de ser vencido. A humanidade estava condicionada a crenças que foram incutidas, através dos tempos, pelo poder econômico, e reforçadas, ultimamente, pelos meios de comunicação.
Não brigavam por dinheiro, apenas usavam-no para sobreviver. Não lutavam, também, pelo poder, mas acreditavam que poderiam acessá-lo, à medida que viesse a ser preciso. E, para concluir seus desapegos, desprezavam a fama, mas zelavam pelo indispensável respeito às suas palavras e atitudes.
À primeira vista, poderiam ser censurados como pessoas esquisitas, ou, talvez, como chegaram a ser chamados, como hippies. No entanto, eles faziam parte de um raro e diminuto grupo de seres diferenciados, reconhecidos como precursores de uma nova civilização, chamados, entre os seus irmãos mais evoluídos, como os semeadores do amanhã.
CAPÍTULO DOIS
A cada final de ciclo, os hábitos e costumes das civilizações encontram-se impregnados de vícios que, poucos conseguem mudar suas crenças e atitudes, por sua repetição contínua e impensada. As rotinas envolvem e consomem as sociedades, que se repetem sem questionar nada, desde que não se sintam particularmente prejudicadas.
Com o passar do tempo, as criaturas humanas vão adquirindo tantos cacoetes que, num determinado momento de suas vidas, já nem se recordam como eram antes. Elas repetem frases, seguem os mesmos caminhos e, quando tentam algo novo, partem das mesmas falsas premissas, que as levaram aos mesmos erros que tentam corrigir.
Quando os Mestres Avatares nascem entre nós, para trazer uma mensagem de otimismo e de esperança, encontram os povos lamentando da vida, chorando seus infortúnios e repetindo, dia após dia, os mesmos atos que os conduziram àquele estado de miséria e escravidão.
Em todos os tempos, as pessoas se submetem à vontade dos mais ricos e poderosos, por se deixarem enganar por promessas e encantamentos, que vão buscar no convívio com falsos libertadores e sacerdotes hipócritas. É uma eterna transferência de responsabilidades, em busca de liberdade e felicidade.
Depois de um ciclo completo, quando se repetem as causas com efeitos diferentes, surge um Mestre pregando uma nova ordem, anunciando verdades ocultas e incitando a população a reagir contra os desmandos dos governantes.
Perseguidos e atacados de todas as formas, esses libertadores da raça humana, depois de caçados e assassinados, acabam deixando uma mensagem que repercute nos tempos futuros.
Nos períodos intermediários, entre a visita ao planeta de um e de outro Mestre, surgem seres que têm a incumbência de despertar a humanidade para um novo ciclo que se aproxima.
Essas pessoas são cidadãos comuns, ou aparentemente comuns, que trazem para o mundo conceitos novos, princípios novos e ideias novas – as sementes do amanhã.
Essas sementes precisam ser plantadas, como precursoras dos frutos do amanhã. O solo ainda não é fértil para a germinação espontânea, é preciso adubá-lo para que surjam as primeiras florações. O adubo é o despojamento, a comunhão e a integração amorosa dos semeadores, agindo nas mentes e nos corações de cada criatura.
Os semeadores percorrem as terras, de norte a sul, semeando os novos ideais. Estes crescerão lentamente, desprezados e recusados por muitos, que, por desconhecerem sua essência sagrada, permanecerão presos aos velhos conceitos viciados e reconhecidamente fracassados.
O tempo se encarregará de, pouco a pouco, disseminar as novas ideias e despertar as consciências mais puras, mais suscetíveis às transformações. À medida que despertam para os novos conceitos, as criaturas vão assumindo a adubação dos novos campos semeados, fortalecendo as ideias com a aplicação delas às suas vidas. E, por fim, surgirão os operários que ceifarão e farão a colheita dos campos férteis.
Enquanto esses tempos não chegam, acompanhemos os semeadores em seu trabalho diário. Eles estão sempre produzindo ideias novas e tentando incuti-las nos hábitos das sociedades a que frequentam. Os mais desavisados alegarão que é impossível cumprir tal tarefa. Mas, nada é impossível para os semeadores. Como diria o mestre Jung, eles não creem, eles sabem.
CAPÍTULO TRÊS
– Querido, acode aqui, as formigas estão destruindo tudo.
– Estou ouvindo barulho de machado, alguém deve estar cortando árvores, vamos lá ver.
– Nossa, os bois derrubaram a cerca outra vez!
Os brados de alerta se repetiam. Ora ele, ora ela, convocava para a luta contra o inimigo comum – o predador.
Eles nunca podiam imaginar a existência de tantos predadores, atacando a natureza de todas as formas. Vigilância constante e sem tréguas. Bastava um simples piscar de olhos, para o predador destruir a horta, a floresta, as cercas.
A tentativa de ter uma horta durou pouco. Formigas e pequenos insetos acabavam com qualquer muda ou semente. O solo arenoso dificultava a fertilidade da terra. Com o tempo, os canteiros passaram a receber terra de fora com muito estrume. Uma ou duas safras foram suficientes; a guerra contra os predadores era maior do que o trato com a terra.
Eles, depois de diversas tentativas, concentraram-se em pequenos canteiros com as poucas variedades que não exigiam terra com muitos nutrientes e pareciam ser imunes aos predadores. Plantaram algumas frutíferas que se adaptaram bem à terra arenosa, e se deram por satisfeitos.
No início, os vizinhos não respeitavam as cercas, agiam como se fossem donos das terras. Afinal, estavam acostumados a usar toda a área como pasto! A lenha para os fogões da vizinhança costumava sair daqueles bosques e capoeiras. O gado derrubava as cercas, que eram mal construídas, pela inabilidade de Gibran. As formigas atacavam as plantas e as folhas das verduras, sob o olhar atônito de Helga. Um caos!
Corre daqui para combater as formigas. Sobe o morro atrás do lenhador. Atravessa o terreno para espantar a criação. A plantação serve de alimento para as formigas. O gado pisa os canteiros e come as folhas de mandioca.
Os nossos semeadores tentam cercar a área, e na falta de toras de madeira, usam a madeira que restou da obra de construção da casa. Por economia, trocam o arame farpado por trançados de bambu. A terra dura dificulta a fixação da madeira, deixando a cerca frágil e dependente da boa vontade do gado.
Tudo vinha abaixo, ao contato do boi mais afoito com a cerca mal construída. E lá vinha a boiada atrás do líder, pisoteando tudo que havia sido plantado, e que lutava para resistir aos ataques das formigas. Um desastre!
Conversavam com um vizinho, pediam ao outro para controlar sua criação, e não deixá-la invadir as terras que, agora, têm dono. Ninguém se nega a ouvi-los, e a prometer ajuda. No dia seguinte, tudo se repete, como se nada houvesse sido dito ou prometido.
A criação invade por baixo, o lenhador, por cima. Corre e segura a cerca. Sobe o morro, e chama a atenção de quem com o machado na mão alega estar só catando a lenha caída no chão. E lá vem sermão!
O homem humilde, com seu machado inerte, houve a preleção e concorda com tudo que é dito. Sem florestas, a água acaba. Sem água, não há vida. O problema é que eles precisam da lenha. Como fazer? E mais sermão! Não derruba o tronco, apara os galhos. Cata a lenha do chão. Num dia, sim senhor, no outro, o machado volta à ação, e mais sermão.
Mudança do clima da Terra. Redução das chuvas. Ameaça de desertificação, proliferação das pragas para a lavoura. O fim do mundo. Tudo muito triste, horroroso, se vier a acontecer. Mas, e a lenha, para fazer a comida hoje, e estar vivo amanhã?
A cada final de dia, os nossos semeadores se sentem esgotados, desalentados e com vontade de deixar tudo para trás, e sair em busca de outras terras e de outra gente. O idealismo fala mais forte e, no dia seguinte, lá estão os dois procurando novas fórmulas para convencer aquele povo.
CAPÍTULO QUATRO
– Se não usar fertilizante, a terra não dá nada. Não se combate as pragas, se não usar veneno. Queima o capim, antes de plantar, não perde tempo com enxada.
As frases se repetiam, e os dois as combatiam como perfeitos esgrimistas diante de inimigos ameaçadores. Eles respondiam aos ataques falando de matéria orgânica, como nutriente natural do solo. Ao limpar o terreno, nunca se queima o mato, deixa-se tudo cobrindo o solo.
Gibran e Helga cansavam de repetir para os vizinhos e para os que cultivavam o solo que o uso de fertilizantes provoca a esterilidade da terra e o surgimento de pragas. Ela explicava que o veneno é um risco para quem o aplica e para quem come os produtos tratados com os defensivos agrícolas.
Surgiam, então, os sermões ecológicos, falando da ambição do homem, que trata a terra como inimiga, querendo retirar dela lucros ilimitados, injetando-lhe química estimulante, que acaba por causar danos irreparáveis às áreas cultivadas.
Citavam exemplos de culturas naturais que vinham apresentando excepcionais resultados, como no horto municipal de Cachoeiro de Itapemirim. Lá, graças ao cultivo de plantas sem agrotóxicos, estavam sendo alcançados altos índices de fertilidade a custos irrisórios.
Todos ouviam calados e balançavam a cabeça afirmativamente, mas, a seguir, repetiam as antigas práticas como se nada fosse. Áreas extensas eram queimadas e transformadas em pastos, desertificando grandes extensões de terra. Os nativos chamavam a queimada de limpeza do pasto, como se a vegetação fosse lixo.
Depois de feita a limpeza, tinha-se a impressão que o homem e a natureza haviam se enfrentado mais uma vez, e ambos tinham saído derrotados. Helga não se conformava, e repetia para quem quisesse ouvir que o meio ambiente deve ser tratado com amor e respeito, pois é nele que mora o homem. Qual é o nosso meio ambiente, senão o próprio planeta! O que é o planeta senão a nossa casa, a casa de todos nós, que o habitamos!
Ela clamava pela preservação da natureza, pelo cuidado com o planeta, por ser dele que vem o alimento que mata a fome e a água que sacia a sede. Todos a ouviam com atenção, mas, percebia-se que não entendiam o que ela estava querendo dizer. Ela sabia que falava para uma plateia de surdos, mas não deixava de semear, confiante que uma das sementes encontraria solo fértil, e daria frutos num certo amanhã.
CAPÍTULO CINCO
“Continua poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em teus próprios dejetos”.
Esta frase, extraída de uma carta escrita, em 1855, pelo cacique Seattle ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce, resumia bem o que o nosso casal de semeadores pensava a respeito do comportamento humano.
Gibran e Helga não se conformavam com o lixo atirado nas ruas, nos quintais e no entorno das casas pobres. Eles viviam a repetir que pobreza não é sinônimo de feiura e sujeira.
Os dois viviam a pregar sua doutrina ambientalista nas casas dos amigos, nas lojas de comércio, em cada esquina onde pudessem ser ouvidos e, até mesmo, no interior do prédio da Prefeitura.
Eles se irritavam com as desculpas que ouviam, e não se cansavam de repetir que não era a falta de dinheiro o motivo de tanto lixo, mas o distanciamento da sociedade moderna dos hábitos simples, que podem preservar a limpeza e a beleza de uma cidade, sem luxo e sem obras faraônicas.
Argumentavam com os governantes e com o povo nas ruas, e percebiam perplexidade nos rostos das pessoas com quem falavam. Todos lhes davam razão, mas não sabiam o que fazer. A maioria da população entendia que lixo era um problema do governo e não do povo.
Eles entendiam que não era tão simples assim, mas foram conversar com o secretário municipal responsável pela coleta do lixo. Depois de muito conversar, os dois saíram da visita com uma sensação pior do que quando entraram. A conclusão a que chegaram é que ninguém tinha controle sobre nada.
O lixo era recolhido de forma inadequada e perigosa. A quantidade de lixo crescia de maneira incontrolável. A área destinada ao lixo já estava saturada. As ocorrências de queima de lixo se multiplicavam, tornando-se atos criminosos, que já tinham fugido do controle dos governantes.
Os dois costumavam voltar para casa, ao final da tarde, desolados e desiludidos. Eles se questionavam sobre o futuro da cidade, com os riscos de contaminação das águas do rio e do ar enfumaçado pelas queimadas. A resposta era sempre a mesma “não há recurso para resolver o problema”.
Quando eles insistiam no emprego de métodos simples, como a separação do lixo, havendo uma coleta seletiva para garrafas, latas, plásticos e papel, faltava caminhão e local para a guarda do lixo reciclável.
Eles sugeriram uma campanha de conscientização da população, para que todos enterrassem em seus quintais, os restos de alimentos, que serviriam como adubo. E, para os prédios do centro da cidade, que ficasse a cargo da Prefeitura criar uma pequena usina de adubo, com a separação da matéria orgânica do restante do lixo. Eles alegavam que era um método simples e barato.
As respostas eram sempre evasivas, pois, ninguém estava disposto a fazer nada, que não envolvesse muito dinheiro, com verbas de muitas cifras, vindas do governo federal. Quanto mais dinheiro envolvido, maiores as chances de desvios e favorecimentos políticos.
Nem para salvar a própria vida, aparecia um voluntário, dentro do serviço público. Enquanto isso, os cidadãos cruzavam os braços, esperando que o governo fizesse a sua parte. Como isso não acontecia ninguém se mexia.
Os dois voltavam desanimados, após as entrevistas com os secretários de diversas pastas.
– Querido, a profecia do cacique Seattle está mais próxima do que imaginávamos.
– Querida, os tempos mudaram, mas os caras-pálidas continuam os mesmos.