sexta-feira, 9 de novembro de 2018

OS SEMEADORES DO AMANHÃ - CAPÍTULOS 9 E 10

CAPÍTULO NOVE
O povo perguntava como seria o progresso anunciado pelo casal? Como definir esse progresso, diante de tantas carências presentes nos tempos de hoje? O progresso seria o fator saciador da fome do povo? Ou o doador das terras, das casas e dos empregos?
A sociedade deveria progredir para possuir ou conquistar para progredir? O progresso vem primeiro e só depois as conquistas sociais? É assim mesmo? Então, voltemos à pergunta inicial do povo, e tentemos entender o progresso? Se formos capazes de entendê-lo, poderemos vislumbrar as conquistas sociais. Caso contrário, passaremos a vida procurando o caminho para as sonhadas igualdades sociais, sem jamais encontrá-lo.
De onde vem o progresso? O que será preciso para atraí-lo? As pessoas ficam seguindo as notícias, como mariposas em volta da luz. Elas sabem que existe, mas não conseguem alcançar o que procuram, sem sucumbir antes de usufruir o seu conteúdo.
Aos poucos, a meta ambicionada vai sendo atingida, sem que se perceba que ela é o ideal sonhado. O processo é longo e dinâmico. A meta se transforma, à medida que dela nos aproximamos. Nós queremos sempre mais e mais, e quando alcançamos o que almejávamos, já não é mais aquilo que estamos querendo.
No meio do processo, surgem as interferências comerciais. Novas projeções são criadas para satisfazer interesses, mas são maquiadas como novos sonhos de progresso. Terras para todos que não têm. Casa própria para quem mora de aluguel. Emprego para todos, com altos salários. Escola de alta qualidade, saúde de verdade, tudo sem custo, e sem aumento de impostos.
Poderíamos ir desfilando a infinidade de sonhos que são colocados na cabeça do povo. Promessas e mentiras que custam caro, pois são promovidas pelos meios de comunicação que cobram muito dinheiro por elas. Quem paga? Os interessados em enganar o povo e se beneficiar da ingenuidade e ignorância das pessoas.
Os sonhos são vendidos sem custo, como se fosse possível adquirir direitos sem deveres. O discurso é sempre o mesmo, que o pobre já foi muito sacrificado, e não pode continuar pagando a conta. Só não é dito quem vai pagar.
O mais rico não abre mão de manter o mais pobre sob o seu domínio. O pobre sonha, um dia, reverter esta situação, assumindo o lugar do mais rico, e dominando os outros. E assim caminha a humanidade, sem sair da zona de conflito.
Os nossos semeadores ficavam horrorizados quando ouviam as promessas dos políticos de um progresso que traria fartura e riqueza para todos. Quem, como, quando, onde? As perguntas não se podiam calar. As respostas não eram ouvidas. Promessas, só promessas.
O povo cobrava casas populares, os semeadores defendiam o direito de cada qual poder construir a sua própria casa, com recursos próprios obtidos com o seu trabalho. Ninguém conseguia entendê-los, quando diziam que não se deve receber nada de graça. Eles tentavam explicar que tudo tem um preço, e quando não se declara claramente o preço do que se recebe, a cobrança virá de uma forma ilícita, ou o preço será muito maior do que se possa imaginar.
Gibran se exaltava quando defendia suas ideias contra as casas populares. Ele as considerava estigmas sociais, que discriminavam os seus moradores e, não raro, privilegiavam uma meia dúzia de apaniguados.
Da mesma forma, ele esbravejava contra a distribuição de terras, sempre privilegiando os infratores e os mais agressivos, que usavam de todos os artifícios violentos para invadir propriedades, armados e dispostos a atacar quem se pusesse à sua frente. Os mais mansos e pacatos, mesmo que mais necessitados, eram esquecidos e deixados na miséria. Esses não davam notícia e não promoviam palanques para os aproveitadores, sempre em busca de voto.
Gibran defendia reformar casas já existentes, no lugar de construir aglomerados de casinhas padronizadas, batizadas de populares. Ele entendia que o pobre que já tem a sua casa construída em terreno de sua propriedade, só precisa de um financiamento a juros baixos e de longo prazo, para ter a casa do seu jeito, uma casa com a cara do dono.
Por que desmatar uma área, quase sempre em encosta de morro, o que ainda é mais grave, para construir um ajuntamento de casas, coladas uma na outra? Que situação deprimente, dizia ele, ser discriminado socialmente como morador de casa popular!
Os custos das reformas seriam muito inferiores aos gastos com criação de loteamentos e de infraestruturas caras, como acontece com as casas populares. Os benefícios sociais seriam incomparavelmente maiores, por não ser necessário remover famílias para lugares distantes de seus amigos e parentes. Sem contar o fato de que não haveria a discriminação de pobreza vitalícia, por residir em conjuntos construídos para pobres.
Helga interferia alegando que o povo devia pedir trabalho, e não emprego. Mas, esse discurso não agradava muito, pois a maioria não quer trabalho, mas ganhar dinheiro. Emprego público é melhor ainda, pois ninguém manda em ninguém.
Helga lembrava aos que pediam mais indústrias, que empregos nessas grandes empresas são caminhos de mão dupla – festa na inauguração da fábrica, demissão em massa, na primeira crise. O povo não estava nem aí para as crises, só pensava em aproveitar as vagas iniciais. Dali em diante, era ver para crer.
Gibran voltava a insistir no papel do governante, que, como ele costumava dizer, é eleito para administrar recursos que permitam aos governados progredir com suas vocações e talentos. A distorção veio com os vícios administrativos, em que os candidatos prometem empresas e parques industriais, como geradores de empregos.
O que ninguém diz é que as indústrias modernas estão contratando cada vez menos operários, pois, são as máquinas e os computadores que se encarregam de quase tudo. No futuro, as grandes indústrias serão as que contratarão menos empregados, produzindo e faturando mais, e desempregando os iludidos que defenderam e aplaudiram suas chegadas às suas cidades.
O trabalho de fábrica, quando exige mão de obra humana, é quase sempre repetitivo, sendo poucos os operários mais qualificados. Quem trabalha para si é o dono de sua vida, é livre para criar. O empregado é submisso às ordens do patrão, e está sempre sujeito a demissões.
Ninguém pode negar a importância dos patrões para seus empregados, assim como deles para seus patrões. Quantos reconhecem essa dependência? Na verdade, são poucos, muito poucos, os patrões que se dão conta de que devem promover uma harmônica relação entre patrão e empregado. Em sua maioria, eles são ambiciosos e egoístas, e quanto maior a empresa, mais se confirma essa afirmação. Os empregados, também ambiciosos, e só pensando em si, não são dedicados e fiéis às suas empresas.
O sindicato de empregados alimenta as insatisfações e põe lenha na fogueira, ou nas caldeiras. Os sindicatos patronais subvertem o sistema, omitindo informações, invertendo números e pondo a sociedade sob a permanente ameaça de crises e demissões. Os governos, comprometidos política e economicamente com as elites do poder acabam submetendo-se a elas, permitindo os constantes ciclos caóticos da humanidade.


CAPÍTULO DEZ
Gibran e Helga não se conformavam com tanta politicagem e comprometimentos, reconhecidos por políticos locais como tramoias. Eles se lastimavam e acusavam os governantes de serem responsáveis pelo que de pior estava acontecendo ao planeta e à humanidade. Eles sabiam que não era justo acusar somente os que governam, e deixar de fora os governados. No fundo, era tudo farinha do mesmo saco.
Sem vontade própria, manipulado pelas elites e enganado pelos meios de comunicação, o trabalhador é massa de manobra dos governantes e de seus financiadores políticos, das associações da classe empresarial e dos seus próprios sindicatos.
Partidos políticos iludem os trabalhadores e convencem-nos que são melhores que os outros. Todos são hipócritas, e são desmascarados assim que assumem o poder. Antes, durante a campanha, sobram as promessas, depois de eleitos, falta tudo e não há verba para cumprir o prometido. Mentiras, só mentiras!
O povo desperdiça, e falta o essencial. Devasta o local onde ergue sua casa, e a condição ambiental vai de mal a pior. O lixo é jogado nas ruas, e reclama-se da prefeitura. Concentra-se nos grandes centros, e protesta-se contra a qualidade de vida nas cidades.
Os governantes fazem vistas grossas às atitudes desleixadas do seu povo, e assim garantem a reeleição. Não se controlam as migrações, porque se perde voto. Não se planeja o desenvolvimento urbano das cidades, pois se perde os currais eleitorais.
Os nossos semeadores visitavam a prefeitura, e tentavam convencer os administradores a pôr ordem na casa. Não tinham verba, ou não tinham caráter, não havia diferença. Eles voltavam para casa, e mais uma vez indignados, armavam seus argumentos para o dia seguinte.
Pobres semeadores, lutando contra solos estéreis. Tristes sementes, sofrendo o ataque de destrutivas pragas. Pobres solos e pobres pragas, dificultando e predando sua própria razão de ser. Povo alienado e governantes atarantados, todos correndo em busca do progresso, enquanto vão destruindo o que seus antepassados deixaram pronto.
O nosso casal não esmorece, e repete, dia a dia, o seu discurso por esses caminhos hostis. Nessas caminhadas, as hostilidades são respondidas com compreensão e as resistências com gentil paciência.
Helga, às vezes, se irrita e perde a calma, se o tema é lixo e devastação das matas. Gibran perde o bom humor com a manipulação dos pobres inocentes iludidos por eternas promessas.
Nada os abala de verdade, a ponto de fazê-los desistir. Eles sentem que um dever assumido com a vida precisa ser respeitado. Alguma coisa parece lembrá-los, a todo instante, que eles estão em missão, compromisso assumido num passado distante, que eles não sabem quando.
Quando pensam que ela desistiu, ela aparece tentando convencer as pessoas a plantar e a cuidar de seus jardins. Revistas debaixo do braço, argumentos na ponta da língua, ela folheia as seções de casa e jardim. As pessoas balançam a cabeça concordando, sem saber com o quê. Elas estão seduzidas pela matéria, e plantas, flores e jardins não fazem parte do tesouro que perseguem em busca de riquezas.
De casa em casa, de esquina em esquina, o casal semeador vai lançando ao vento suas caprichosas sementes, que insistem em cair entre os espinhos ou no meio das pedras. Os dois passam o dia falando, e voltam para casa falando.
Tolos são os que acreditam que eles se cansarão de pregar no deserto, e desistirão da missão. Quem pensa assim, não sabe do que um semeador é capaz, quando traz nas costas o saco de sementes sagradas, que frutificarão nos novos tempos.






sexta-feira, 2 de novembro de 2018

OS SEMEADORES DO AMANHÃ - CAPÍTULOS DE 6 A 8

CAPÍTULO SEIS
Em suas sacolas de sementes, nossos semeadores conduziam soluções simples para velhos e intermináveis problemas. Eles diziam que os dias de amanhã ressuscitariam a simplicidade. A tecnologia será desmitificada, e o que se faz com muitos milhões, amanhã será realizado com alguns míseros centavos. Os tecnocratas perderão seus privilégios, e todos terão acesso às novas técnicas. A humanidade, enfim, entenderá que máquinas são criadas para servir o homem, e nunca para explorá-lo.
A semeadura, no entanto, ainda encontra resistências. O solo não está fértil o bastante para as novas sementes. O nosso bravo casal não esmorece e prossegue no seu trabalho de semear hoje os frutos do amanhã.
Lá estão eles, preparando as mudas que serão usadas para reflorestar uma pequena área devastada. Muitos cruzam os braços diante da devastação criminosa das florestas. O nosso casal planta as mudas, uma a uma, de forma incansável e entusiástica.
Para muitos, eles não passam de loucos, para nós, eles estão fazendo a parte deles. Se parecem loucos, é porque são diferentes da grande maioria. E, num mundo de tantas loucuras, são os nossos loucos os mais lúcidos. 
 

CAPÍTULO SETE
Enquanto muitos se preocupam com os rituais nos templos, o nosso casal de semeadores celebra na natureza, o verdadeiro cerimonial sagrado. Ama a tua Mãe-Terra e o teu Pai-Céu que te tornarás o Filho-Filha amado e amante, o Cristo renascido e não reconhecido.
O tempo não para, e Gibran e Helga prosseguem em seu trabalho de semeadura, recriando arquétipos e descerrando as cortinas do amanhã. Eles mal se dão conta do que falam ou pensam deles, eles só trabalham, como se sua obra estivesse atrasada e tivesse que ser acelerada.
Nós, e só nós, que a tudo vemos, é que podemos reconhecer o ritual celebrado, que vai atuar em elevados níveis da consciência planetária.


CAPÍTULO OITO
Crises, as eternas e repetitivas crises vêm e vão. Antes era a inflação, agora o consumo. Desempregos, antes, e admissão em massa, depois. Compras se reduzem e, logo, os novos picos de consumo aceleram as contratações. A bolsa sobe, e todos compram, a bolsa desce, e todos vendem. Os mais espertos compram e vendem antes dos demais, e ganham mais.
Há de existir crises, para alimentar a hipocondria social do povo. O desemprego, a casa própria, os sem-terra à cata dela, os sem-teto invadindo prédios inacabados ou interditados. Os gays protestam, as mulheres são assediadas, os machos agridem, uns apoiam, outros condenam.
Ideias são aceitas, nem é preciso ser muito criativo, basta criar fantasmas. E depois de criados, soltá-los nas sombras da noite escura de almas assustadas e desarmadas. A todo instante, se renovam os boatos e as ameaças de alguma tragédia, que um boateiro retirou do fundo da cartola. Povo assustado, boatos valorizados e poderosos entesourados.
No meio disso tudo, lá estão os nossos semeadores, abastecendo o povo com as armas da revolução do amanhã. Quem esperava por metralhadoras, fuzis e canhões, se surpreende com as inocentes bombinhas que são detonadas pelos nossos agitadores culturais.
Não esperem por indústrias para dar emprego ao povo, que vão se cansar de tanto esperar. Casas populares são engodos políticos para distrair o povo, que é atirado de um canto para outro, sem poder escolher seu destino. As terras cobradas pelos sem-terra são conquistadas, não por quem tem direito, mas pelos ativistas mais violentos e agressivos. E, o enorme grupo de sem-justiça, sem-cultura, sem-palavra, sem-especialização, como ficam eles? Não ficam.
Seria sensato induzi-los a invadir e ocupar os objetos do desejo de cada um? Violência gerando violência, para contrabalançar com a mentira gerando mentira. As perguntas se sucediam na boca dos nossos semeadores, e ficavam sem respostas.
Eles mesmos respondiam as questões por eles propostas. O desemprego é sinal dos novos tempos, com máquinas no lugar do homem. Estamos no limiar da contra-Revolução Industrial, com operários retornando aos campos e fábricas informatizando-se ou fechando. A mão de obra humana sendo substituída pela mão de obra informatizada.
O trabalho tomará o lugar do emprego. Carteira de trabalho assinada se tornará pura demagogia política, de quem não está nem aí para as consequências das onerações das micro e pequenas empresas.
O homem deixará de ser o robô que se transformou com a Revolução Industrial, voltando às suas habilidades artesanais, como respeitável criador de obras. As mentes se tornarão mais criativas, e menos suscetíveis a serem enganadas. Cada obra será assinada identificando o artista criador. Máquinas continuarão produzindo produtos sem alma, o homem criará obras com vida.
As chaminés não mais despejarão fumaça negra sobre as cidades. O mundo terá de mudar por bem ou por mal. Se não for espontaneamente, será por doenças e desgraças. A poluição será erradicada, ou populações serão exterminadas.
O futuro não admitirá poluição de espécie alguma, nem do ar, nem do rio e nem do mar. Computadores se ocuparão da purificação da vida na Terra. Cada família encontrará meios decentes de sobrevivência, sem depender de esmolas dos governos.
O empregado submisso a horários, marcando o ponto sob a vigilância prepotente dos patrões, desaparecerá, dando lugar a seres independentes e donos dos seus próprios negócios. Os negócios de família voltarão a florescer e se tornarão microempresas rentáveis e autossustentáveis.
Gibran se entusiasmava, ao falar dos campos novamente ocupados, não por lavradores pobres e desnutridos, mas, por famílias de classe média que, desiludidas com as grandes cidades, retornarão para as terras, de onde seus ancestrais saíram cheios de esperanças e ilusões. Os conquistadores das terras não mais serão os violentos, mas os competentes.
As terras passarão a ser tratadas com amor e respeito, não mais invadidas por serras elétricas desmatando florestas, nem por máquinas agredindo o solo sagrado. As áreas plantadas respeitarão as matas nativas, como o homem branco deveria ter feito com as terras indígenas. A sabedoria triunfará sobre a riqueza. Com o triunfo dos sábios, a justiça redistribuirá os tesouros da Terra.
Este era o teor do discurso do nosso casal de semeadores, semeando as boas sementes e confundindo os ouvintes. Ninguém conseguia entender como as sementes frutificariam no amanhã. Não condenamos os ignorantes, afinal de contas, as sementes não eram deste planeta. Elas vieram de muito longe através dos tempos, para serem semeadas no mundo de hoje e darem frutos no de amanhã.
Como cobrar entendimento dos pobres coitados que não entendiam nada, se os frutos talvez só venham a nascer daqui a décadas, séculos ou milênios? Ah, o tempo, como é difícil falar do tempo!
A plateia ouvia os semeadores, e pensava como seria possível viver sem a terra, sem casa, sem emprego. Afinal, a maioria era formada de quem é sem quase tudo. Pobre humanidade, quanto sofrimento diante das falsas formas, em desprezo das verdadeiras essências!
Gibran dá a mão a Helga, pede licença e, os dois se retiram calados, e se recolhem a seu templo. Ali, a vida flui sem ouro e nem hora. O tempo não influi e nem contribui. Lá não existe nem patrão e nem padrão.
No mundo dos semeadores, tudo se restaura e tudo se reconstrói, e nada se perde. As sementes das antigas civilizações dos deuses são resgatadas na linha do tempo e servem como as boas sementes para os tempos futuros.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

OS SEMEADORES DO AMANHÃ - CAPÍTULOS DE 1 A 5

Aos que acompanharam com vivo interesse, a publicação de Memórias de um Profeta, ofereço, agora, a sequência da história de Gibran e Helga, a que denominei de Os Semeadores do Amanhã.
Boa leitura, é o que desejo a todos.

OS SEMEADORES DO AMANHÃ
“Eis que um semeador saiu a semear. Quando semeava, uma parte da semente caiu ao longo do caminho e vieram as aves do céu e comeram-na. Outra, porém, caiu em lugar pedregoso, onde não havia muita terra; logo nasceu, porque não tinha profundidade de terra. Mas, saindo o sol, queimou-se; porque não tinha raiz, secou. Outra caiu entre os espinhos; cresceram os espinhos e a sufocaram. Outra, enfim, caiu em boa terra e frutificou …”.
(Evangelho Segundo Mateus, 13, 3-9).


CAPÍTULO UM
Egressos de um passado distante, eles surgem, sem serem anunciados, para semear o futuro.
Rio de Janeiro. 1990. Gibran e Helga.
A história começa na cidade do Rio de Janeiro, na década de 90. O cenário principal logo se transporta para uma cidade qualquer, no interior do Brasil, nem Norte e nem Sul.
Os dois cresceram, estudaram, amaram e se casaram. Eles não eram comuns, divergiam das atitudes e costumes da sua época. Esquisitos, assim eles se definiam, quando queriam justificar o seu modo de vida. No início, nem tanto; mais tarde, não havia como negar.
Os conceitos e costumes que costumavam defender podiam dar a impressão de que fossem meio loucos. De louco, no entanto, eles não tinham nada. Eram duas almas muito à frente do seu tempo.
Conta-nos a história que, num certo momento, sem que nem eles saibam o porquê, foram levados pelo destino para uma pequena cidade. E foi lá que a verdadeira missão do casal começou.
Antes disso, nos dois anos que antecederam a mudança, muitos sinais misteriosos e poucas explicações. Buscas desenfreadas por respostas levaram-nos a palestras e estudos, que no lugar de soluções trouxeram novas questões em suas mentes.
Uma conspiração do universo tirou-os, de repente, da vida centrada que levavam, e arrastou-os para experiências místicas e mistérios desconexos, que viraram suas vidas de ponta-cabeça.
No Rio de Janeiro, eles não mais se sentiam à vontade. O rumo foi traçado pelo destino, e a bússola espiritual apontou que caminho tomar. Eles partiram numa viagem sem volta, em busca de suas missões.
A motivação alegada teria sido o desejo de uma vida simples, sem as ambições e os vícios das grandes cidades. A verdadeira razão ficou preservada com os dois, até que, tempos mais tarde, contaram a verdade.
Conscientes das dificuldades dos primeiros anos, eles de nada reclamavam. Aceitavam os apertos financeiros e as diferenças socioculturais de seus novos vizinhos como experiências indispensáveis à evolução de suas almas.
Amavam a terra como a um ser vivo, e tratavam as árvores e os animais como irmãos. Admiravam as forças da natureza e cultuavam o vento como mensageiro dos deuses. Agiam como guardiões das matas, e vigilantes em defesa da preservação das árvores e da liberdade das aves.
Moravam num sítio com vasta área de pasto, que pretendiam reflorestar e transformar em reserva florestal de propriedade privada. O meio ambiente era o foco central de suas atenções. Viviam repetindo os alertas sobre o aumento da temperatura e o risco da escassez de água potável no planeta.
Seus discursos ambientais eram fortes, e convenciam facilmente os que os ouviam. Alguns, talvez, os achassem meio exagerados, mas não se atreviam a contestá-los. Havia algo de profético em seus alertas, como se houvessem recebido alguma mensagem sobre o futuro da Terra.
Helga tinha como hábito citar notícias dos telejornais, com uma interpretação toda pessoal, o que dava enorme consistência aos seus argumentos. Gibran preferia um discurso bem mais político e social, e talvez espiritual, mas, não menos lógico e consistente. Eles reconheciam que estavam no mundo, mas não eram do mundo.
A tarefa deles era árdua e quase solitária. Mudar a consciência das pessoas não é um desafio fácil de ser vencido. A humanidade estava condicionada a crenças que foram incutidas, através dos tempos, pelo poder econômico, e reforçadas, ultimamente, pelos meios de comunicação.
Não brigavam por dinheiro, apenas usavam-no para sobreviver. Não lutavam, também, pelo poder, mas acreditavam que poderiam acessá-lo, à medida que viesse a ser preciso. E, para concluir seus desapegos, desprezavam a fama, mas zelavam pelo indispensável respeito às suas palavras e atitudes.
À primeira vista, poderiam ser censurados como pessoas esquisitas, ou, talvez, como chegaram a ser chamados, como hippies. No entanto, eles faziam parte de um raro e diminuto grupo de seres diferenciados, reconhecidos como precursores de uma nova civilização, chamados, entre os seus irmãos mais evoluídos, como os semeadores do amanhã.
CAPÍTULO DOIS
A cada final de ciclo, os hábitos e costumes das civilizações encontram-se impregnados de vícios que, poucos conseguem mudar suas crenças e atitudes, por sua repetição contínua e impensada. As rotinas envolvem e consomem as sociedades, que se repetem sem questionar nada, desde que não se sintam particularmente prejudicadas.
Com o passar do tempo, as criaturas humanas vão adquirindo tantos cacoetes que, num determinado momento de suas vidas, já nem se recordam como eram antes. Elas repetem frases, seguem os mesmos caminhos e, quando tentam algo novo, partem das mesmas falsas premissas, que as levaram aos mesmos erros que tentam corrigir.
Quando os Mestres Avatares nascem entre nós, para trazer uma mensagem de otimismo e de esperança, encontram os povos lamentando da vida, chorando seus infortúnios e repetindo, dia após dia, os mesmos atos que os conduziram àquele estado de miséria e escravidão.
Em todos os tempos, as pessoas se submetem à vontade dos mais ricos e poderosos, por se deixarem enganar por promessas e encantamentos, que vão buscar no convívio com falsos libertadores e sacerdotes hipócritas. É uma eterna transferência de responsabilidades, em busca de liberdade e felicidade.
Depois de um ciclo completo, quando se repetem as causas com efeitos diferentes, surge um Mestre pregando uma nova ordem, anunciando verdades ocultas e incitando a população a reagir contra os desmandos dos governantes.
Perseguidos e atacados de todas as formas, esses libertadores da raça humana, depois de caçados e assassinados, acabam deixando uma mensagem que repercute nos tempos futuros.
Nos períodos intermediários, entre a visita ao planeta de um e de outro Mestre, surgem seres que têm a incumbência de despertar a humanidade para um novo ciclo que se aproxima.
Essas pessoas são cidadãos comuns, ou aparentemente comuns, que trazem para o mundo conceitos novos, princípios novos e ideias novas – as sementes do amanhã.
Essas sementes precisam ser plantadas, como precursoras dos frutos do amanhã. O solo ainda não é fértil para a germinação espontânea, é preciso adubá-lo para que surjam as primeiras florações. O adubo é o despojamento, a comunhão e a integração amorosa dos semeadores, agindo nas mentes e nos corações de cada criatura.
Os semeadores percorrem as terras, de norte a sul, semeando os novos ideais. Estes crescerão lentamente, desprezados e recusados por muitos, que, por desconhecerem sua essência sagrada, permanecerão presos aos velhos conceitos viciados e reconhecidamente fracassados.
O tempo se encarregará de, pouco a pouco, disseminar as novas ideias e despertar as consciências mais puras, mais suscetíveis às transformações. À medida que despertam para os novos conceitos, as criaturas vão assumindo a adubação dos novos campos semeados, fortalecendo as ideias com a aplicação delas às suas vidas. E, por fim, surgirão os operários que ceifarão e farão a colheita dos campos férteis.
Enquanto esses tempos não chegam, acompanhemos os semeadores em seu trabalho diário. Eles estão sempre produzindo ideias novas e tentando incuti-las nos hábitos das sociedades a que frequentam. Os mais desavisados alegarão que é impossível cumprir tal tarefa. Mas, nada é impossível para os semeadores. Como diria o mestre Jung, eles não creem, eles sabem.
CAPÍTULO TRÊS
– Querido, acode aqui, as formigas estão destruindo tudo.
– Estou ouvindo barulho de machado, alguém deve estar cortando árvores, vamos lá ver.
– Nossa, os bois derrubaram a cerca outra vez!
Os brados de alerta se repetiam. Ora ele, ora ela, convocava para a luta contra o inimigo comum – o predador.
Eles nunca podiam imaginar a existência de tantos predadores, atacando a natureza de todas as formas. Vigilância constante e sem tréguas. Bastava um simples piscar de olhos, para o predador destruir a horta, a floresta, as cercas.
A tentativa de ter uma horta durou pouco. Formigas e pequenos insetos acabavam com qualquer muda ou semente. O solo arenoso dificultava a fertilidade da terra. Com o tempo, os canteiros passaram a receber terra de fora com muito estrume. Uma ou duas safras foram suficientes; a guerra contra os predadores era maior do que o trato com a terra.
Eles, depois de diversas tentativas, concentraram-se em pequenos canteiros com as poucas variedades que não exigiam terra com muitos nutrientes e pareciam ser imunes aos predadores. Plantaram algumas frutíferas que se adaptaram bem à terra arenosa, e se deram por satisfeitos.
No início, os vizinhos não respeitavam as cercas, agiam como se fossem donos das terras. Afinal, estavam acostumados a usar toda a área como pasto! A lenha para os fogões da vizinhança costumava sair daqueles bosques e capoeiras. O gado derrubava as cercas, que eram mal construídas, pela inabilidade de Gibran. As formigas atacavam as plantas e as folhas das verduras, sob o olhar atônito de Helga. Um caos!
Corre daqui para combater as formigas. Sobe o morro atrás do lenhador. Atravessa o terreno para espantar a criação. A plantação serve de alimento para as formigas. O gado pisa os canteiros e come as folhas de mandioca.
Os nossos semeadores tentam cercar a área, e na falta de toras de madeira, usam a madeira que restou da obra de construção da casa. Por economia, trocam o arame farpado por trançados de bambu. A terra dura dificulta a fixação da madeira, deixando a cerca frágil e dependente da boa vontade do gado.
Tudo vinha abaixo, ao contato do boi mais afoito com a cerca mal construída. E lá vinha a boiada atrás do líder, pisoteando tudo que havia sido plantado, e que lutava para resistir aos ataques das formigas. Um desastre!
Conversavam com um vizinho, pediam ao outro para controlar sua criação, e não deixá-la invadir as terras que, agora, têm dono. Ninguém se nega a ouvi-los, e a prometer ajuda. No dia seguinte, tudo se repete, como se nada houvesse sido dito ou prometido.
A criação invade por baixo, o lenhador, por cima. Corre e segura a cerca. Sobe o morro, e chama a atenção de quem com o machado na mão alega estar só catando a lenha caída no chão. E lá vem sermão!
O homem humilde, com seu machado inerte, houve a preleção e concorda com tudo que é dito. Sem florestas, a água acaba. Sem água, não há vida. O problema é que eles precisam da lenha. Como fazer? E mais sermão! Não derruba o tronco, apara os galhos. Cata a lenha do chão. Num dia, sim senhor, no outro, o machado volta à ação, e mais sermão.
Mudança do clima da Terra. Redução das chuvas. Ameaça de desertificação, proliferação das pragas para a lavoura. O fim do mundo. Tudo muito triste, horroroso, se vier a acontecer. Mas, e a lenha, para fazer a comida hoje, e estar vivo amanhã?
A cada final de dia, os nossos semeadores se sentem esgotados, desalentados e com vontade de deixar tudo para trás, e sair em busca de outras terras e de outra gente. O idealismo fala mais forte e, no dia seguinte, lá estão os dois procurando novas fórmulas para convencer aquele povo.
CAPÍTULO QUATRO
– Se não usar fertilizante, a terra não dá nada. Não se combate as pragas, se não usar veneno. Queima o capim, antes de plantar, não perde tempo com enxada.
As frases se repetiam, e os dois as combatiam como perfeitos esgrimistas diante de inimigos ameaçadores. Eles respondiam aos ataques falando de matéria orgânica, como nutriente natural do solo. Ao limpar o terreno, nunca se queima o mato, deixa-se tudo cobrindo o solo.
Gibran e Helga cansavam de repetir para os vizinhos e para os que cultivavam o solo que o uso de fertilizantes provoca a esterilidade da terra e o surgimento de pragas. Ela explicava que o veneno é um risco para quem o aplica e para quem come os produtos tratados com os defensivos agrícolas.
Surgiam, então, os sermões ecológicos, falando da ambição do homem, que trata a terra como inimiga, querendo retirar dela lucros ilimitados, injetando-lhe química estimulante, que acaba por causar danos irreparáveis às áreas cultivadas.
Citavam exemplos de culturas naturais que vinham apresentando excepcionais resultados, como no horto municipal de Cachoeiro de Itapemirim. Lá, graças ao cultivo de plantas sem agrotóxicos, estavam sendo alcançados altos índices de fertilidade a custos irrisórios.
Todos ouviam calados e balançavam a cabeça afirmativamente, mas, a seguir, repetiam as antigas práticas como se nada fosse. Áreas extensas eram queimadas e transformadas em pastos, desertificando grandes extensões de terra. Os nativos chamavam a queimada de limpeza do pasto, como se a vegetação fosse lixo.
Depois de feita a limpeza, tinha-se a impressão que o homem e a natureza haviam se enfrentado mais uma vez, e ambos tinham saído derrotados. Helga não se conformava, e repetia para quem quisesse ouvir que o meio ambiente deve ser tratado com amor e respeito, pois é nele que mora o homem. Qual é o nosso meio ambiente, senão o próprio planeta! O que é o planeta senão a nossa casa, a casa de todos nós, que o habitamos!
Ela clamava pela preservação da natureza, pelo cuidado com o planeta, por ser dele que vem o alimento que mata a fome e a água que sacia a sede. Todos a ouviam com atenção, mas, percebia-se que não entendiam o que ela estava querendo dizer. Ela sabia que falava para uma plateia de surdos, mas não deixava de semear, confiante que uma das sementes encontraria solo fértil, e daria frutos num certo amanhã.
CAPÍTULO CINCO
“Continua poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em teus próprios dejetos”.
Esta frase, extraída de uma carta escrita, em 1855, pelo cacique Seattle ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce, resumia bem o que o nosso casal de semeadores pensava a respeito do comportamento humano.
Gibran e Helga não se conformavam com o lixo atirado nas ruas, nos quintais e no entorno das casas pobres. Eles viviam a repetir que pobreza não é sinônimo de feiura e sujeira.
Os dois viviam a pregar sua doutrina ambientalista nas casas dos amigos, nas lojas de comércio, em cada esquina onde pudessem ser ouvidos e, até mesmo, no interior do prédio da Prefeitura.
Eles se irritavam com as desculpas que ouviam, e não se cansavam de repetir que não era a falta de dinheiro o motivo de tanto lixo, mas o distanciamento da sociedade moderna dos hábitos simples, que podem preservar a limpeza e a beleza de uma cidade, sem luxo e sem obras faraônicas.
Argumentavam com os governantes e com o povo nas ruas, e percebiam perplexidade nos rostos das pessoas com quem falavam. Todos lhes davam razão, mas não sabiam o que fazer. A maioria da população entendia que lixo era um problema do governo e não do povo.
Eles entendiam que não era tão simples assim, mas foram conversar com o secretário municipal responsável pela coleta do lixo. Depois de muito conversar, os dois saíram da visita com uma sensação pior do que quando entraram. A conclusão a que chegaram é que ninguém tinha controle sobre nada.
O lixo era recolhido de forma inadequada e perigosa. A quantidade de lixo crescia de maneira incontrolável. A área destinada ao lixo já estava saturada. As ocorrências de queima de lixo se multiplicavam, tornando-se atos criminosos, que já tinham fugido do controle dos governantes.
Os dois costumavam voltar para casa, ao final da tarde, desolados e desiludidos. Eles se questionavam sobre o futuro da cidade, com os riscos de contaminação das águas do rio e do ar enfumaçado pelas queimadas. A resposta era sempre a mesma “não há recurso para resolver o problema”.
Quando eles insistiam no emprego de métodos simples, como a separação do lixo, havendo uma coleta seletiva para garrafas, latas, plásticos e papel, faltava caminhão e local para a guarda do lixo reciclável.
Eles sugeriram uma campanha de conscientização da população, para que todos enterrassem em seus quintais, os restos de alimentos, que serviriam como adubo. E, para os prédios do centro da cidade, que ficasse a cargo da Prefeitura criar uma pequena usina de adubo, com a separação da matéria orgânica do restante do lixo. Eles alegavam que era um método simples e barato.
As respostas eram sempre evasivas, pois, ninguém estava disposto a fazer nada, que não envolvesse muito dinheiro, com verbas de muitas cifras, vindas do governo federal. Quanto mais dinheiro envolvido, maiores as chances de desvios e favorecimentos políticos.
Nem para salvar a própria vida, aparecia um voluntário, dentro do serviço público. Enquanto isso, os cidadãos cruzavam os braços, esperando que o governo fizesse a sua parte. Como isso não acontecia ninguém se mexia.
Os dois voltavam desanimados, após as entrevistas com os secretários de diversas pastas.
– Querido, a profecia do cacique Seattle está mais próxima do que imaginávamos.
– Querida, os tempos mudaram, mas os caras-pálidas continuam os mesmos.


































sexta-feira, 12 de outubro de 2018

MEMÓRIAS DE UM PROFETA - CAPÍTULOS 35, 36, 37 E 38

CAPÍTULO TRINTA E CINCO
O Mestre indicou a data certa para a viagem, dia 11 de agosto, um dia de mestre. Naquela data, havia um navio que partiria de Hamburgo para o Brasil, repleto de viajantes ansiosos por participar dos festejos da independência do Brasil. Gibran pensou consigo mesmo que o Mestre não escolheria uma data em que não houvesse a previsão de partida de um navio.
Passagens compradas, providências tomadas e recomendações distribuídas entre os amigos e os vizinhos, o casal estava pronto para conhecer a terra onde viveriam a sua próxima encarnação. Gibran entregou a Wilhelm os manuscritos do livro, cujo título deixou a cargo do amigo.
Helga surpreendeu Gibran, ao surgir com seus manuscritos sobre ervas. Wilhelm sorriu e agradeceu a ambos, sem surpresa, pois fora ele quem sugerira a Helga que reunisse num livro todos os seus conhecimentos sobre ervas.
Véspera da viagem, malas prontas, cada detalhe revisto e conferido, despedidas dos amigos em torno da mesa com pratos de sopa de ervas. No dia seguinte, Wilhelm os transportaria até a estação de trem. E dali para Hamburgo seria o trecho final em solo alemão.
Casa fechada, portas e janelas trancadas. Abraços nos mais íntimos e poeira na estrada. Apitos de trens, disparados a tempos curtos, anunciando os últimos minutos antes das partidas. Um aceno de mão fechou a cena, deixando o amigo de pé na plataforma, enquanto Gibran e Helga apertavam as mãos e sorriam sorrisos de quem sonhavam com aquele momento.
Eles jamais voltariam à Alemanha. E nunca mais ninguém ouviu falar daquele casal que saiu de Stuttgart para a terra prometida, onde tinha um encontro marcado com o destino. Os festejos no Brasil foram imponentes e fotos de construções de rara beleza arquitetônica percorreram o mundo. Mas, de Gibran e Helga nenhuma notícia, nenhuma foto, nenhuma lembrança.
A história dos dois termina assim, sem revelar seus paradeiros. Gibran e Helga desapareceram sem deixar rastros, assim como, em eras passadas, Lao-Tzé, que nunca mais foi visto, após deixar o seu livro que revela Deus, nas mãos de quem lhe pedira o favor de escrever seus ensinamentos.
Gibran legou para um amigo as suas conversas com o Mestre, e Helga, os seus segredos sobre as ervas. Do mesmo modo que Lao-Tzé, cada qual tinha algo a deixar para a humanidade, revelações sagradas e inspiradas por seres de outros planos.
O livro de Lao-Tzé tornou-se a bíblia dos taoistas. O que se tornaria o livro de Gibran e o estudo sobre ervas de autoria de Helga? A resposta estará num tempo futuro, quando, talvez, nem eles com suas origens brasileiras poderão testemunhar, por ser cedo ainda para que as revelações do Mestre sejam confirmadas.
Wilhelm fez a sua parte, encaminhando os manuscritos para o editor. Este tratou de engavetá-los, e distribuir desculpas e mentiras, até a sua morte. O amigo não conseguiu resistir por muito mais tempo após a morte do editor, e desistiu. O livro ficou esquecido, e o casal, com o tempo, se tornou uma lenda local. Ninguém mais ouviu falar dos moradores daquela casa abandonada, coberta de mato e trepadeiras. Até que, em 1980, anos após o livro de Gibran ter sido publicado por um neto do editor, que descobrira os manuscritos guardados pelo avô, seu nome começou a ser conhecido em alguns países, dentre eles a Alemanha.
A conexão do autor com a cidade de Stuttgart foi o passo decisivo para despertar o interesse das autoridades locais e da imprensa naquela casa abandonada. Os vizinhos contavam histórias do casal, que mais pareciam contos de fadas. Ninguém sabia dizer, exatamente, de onde as revelações contidas no livro de Gibran tinham saído.
Falava-se de seres estranhos que, à noite, visitavam Gibran, e que lhe teriam passado conhecimentos secretos, que foram transferidos para o livro. Inventaram-se mentiras e engendraram-se mistérios em torno do casal, que separar o falso do verdadeiro tornou-se impossível.
Justificavam o estranho desaparecimento do casal através de relatos de acontecimentos assombrosos relacionados a seres alados que os teriam transportado para o cimo da Floresta Negra, onde teriam adquirido a imortalidade. Uns falavam de naves no céu que os levaram para seus mundos de origem. Outros, falavam de anjos e milagres.
A realidade é que na Alemanha não havia nenhum sinal do casal. A viagem dos dois para o Brasil foi uma ida sem volta. E, no Brasil, quem teria alguma informação? Ninguém jamais ouvira falar de um casal alemão que viera para o Brasil, em 1922, para participar das festas dos cem anos da independência.
CAPÍTULO TRINTA E SEIS
O livro de Gibran surgiu nas livrarias no ano de 1976, provocando muito interesse naquelas profecias que foram escritas na década de vinte, e que relatavam acontecimentos que já tinham sido confirmados. Muitos outros, previstos para dentro de mais cem a cento e cinquenta anos, tratavam de transformações profundas nas estruturas sociais.
Lançado sob o título Memórias de um Profeta, o livro ganhou projeção mundial, sendo traduzido para, praticamente, todos os idiomas. A discussão em torno do autor, que havia começado no seu país de origem, logo se deslocou para o Brasil, local mencionado como o da sua próxima encarnação.
Sem vestígios no Brasil, o que prevaleceu foram os fatos ocorridos na Alemanha, e assim mesmo distorcidos pelas fantasias dos que deram seus depoimentos. A obra impressionava pela exatidão dos acontecimentos e pelas situações relatadas, todas verossímeis, por se encaixarem com a época em que o livro foi escrito. Do autor, porém, nada se sabia.
O navio saiu de Hamburgo e chegou ao porto do Rio de Janeiro. Entre os passageiros, não constavam os nomes de Gibran e Helga. A única informação segura, obtida dos descendentes dos amigos do casal, era a da viagem deles no navio que saíra de Hamburgo em 11 de agosto. Este navio chegou ao Brasil, e na relação dos passageiros não havia ninguém com aqueles nomes.
O livro sobreviveu ao autor, e só não ficou conhecido como obra de autor desconhecido, porque se lia na capa o nome do autor – GIBRAN. Nada além do nome próprio, apenas GIBRAN.
O livro de Gibran se tornou o livro de cabeceira de muita gente importante. Políticos e cientistas acompanhavam os vaticínios sobre os novos tempos. Religiosos e espiritualistas mantinham o livro sempre ao alcance das mãos. Dizem que até mesmo o Papa guardava o livro na gaveta da sua mesinha de cabeceira.
O tempo tratou de se ocupar da sua parte, fazendo com que se esquecesse de questionar sobre a vida e o desaparecimento do autor do livro. Enquanto isso, as almas de Gibran e Helga viviam as suas novas vidas, encarnadas em personalidades que também nada sabiam sobre suas origens.
Nascidos em meados da década de quarenta, ele nasceu logo no início do ano, e ela no final do ano. O ano de nascimento e os nomes recebidos estão velados. A cidade do Brasil foi o Rio de Janeiro, a mesma para onde eles se dirigiram vindos da Alemanha.
Eles demoraram cerca de 20 anos para se reencontrar, e, todo o processo de aproximação foi comandado por adeptos de Saint Germain, que supervisionava à distância o comportamento dos seus discípulos. Habitaram na mesma cidade e no mesmo bairro, estudaram na mesma escola e tiveram amigos comuns, os gostos semelhantes acabaram por aproximá-los e as almas, enfim, extravasaram suas paixões.
Da paixão para o amor foi uma jornada tranquila, daí para a união, um passo seguro e consciente. No início, a luta pela sobrevivência, os karmas a resgatar, os sofrimentos naturais de quem precisa passar por experiências e desafios até estar pronto para reencontrar o Mestre. Este dia chegou, e com ele a mudança de vida, a nova Iniciação celebrada por Melquizedec, numa comprovação do nível de evolução das almas.
Mestre Saint Germain reatou seus laços Iniciáticos com ele, e a Mãe Natureza, com ela. Os dois reassumiram suas rotinas de vida em tudo semelhantes às de Stuttgart. Ele recebendo e passando mensagens, ela cuidando da terra.
Ele e o Mestre se tornaram um só. Ela e a Mãe-Terra não tinham distinção. Ele conversava com o Mestre que mantinha o seu foco permanentemente centrado na mente dele. Ela recebia a inspiração da Natureza, e seguida de fadas e elfos passeava pelas alamedas e canteiros dos jardins.
Ainda nos dias de hoje, eles trabalham pela evolução da humanidade. Protegidos dos males do mundo e inspirados pelos devas da Obra, os dois semeiam esperanças nas mentes e nos corações daqueles com quem convivem.
Eles sabem que são diferentes, que estão no mundo, mas não são do mundo. Ele veio para a Terra, a serviço da Obra, há vinte e cinco milhões de anos, trazendo-a consigo. Eles formam um par, há milhões de anos, e por isso são perfeitas almas gêmeas.


CAPÍTULO TRINTA E SETE
Consta que as almas de Gibran e Helga prosseguem a serviço da Obra como discípulos de Saint Germain. Sem grandes aparatos ou ostentações, ambos cumprem suas missões. Exercendo funções de mestres, cada qual atua numa área diferente, mas agindo em sincronia perfeita com o Mestre Saint Germain.
Ele, após reencarnar no Brasil, adquiriu o livro de Gibran, assim que foi lançado no mercado. E ficou encantado com os relatos do autor, identificando-se, de imediato, com todas as revelações contidas no livro. Transformou-o em livro de cabeceira, e não deixa de consultá-lo sempre que ocorre um acontecimento extraordinário em qualquer lugar do mundo.
Ele tinha a sensação de já ter tomado conhecimento daquelas revelações, mas não sabia explicar como isso teria acontecido, até que o Mestre Saint Germain voltou a se conectar. A partir do momento em que voltou a se repetir sua ligação com o Mestre, ele, enfim, se reconheceu como a reencarnação de Gibran.
Desta primeira constatação, até identificar Helga como a sua esposa, foi mera questão de tempo. O livro de Helga também começara a ganhar destaque, com a divulgação da editora de que se tratava da esposa de Gibran. As suas informações sobre ervas se tornaram referências nas cozinhas do mundo inteiro.
Com a mesma simplicidade, de quando encarnara como Gibran, ele levava uma vida pacata numa pequena cidade do interior. Assim como Gibran deixara Berlim para viver nos campos de Stuttgart, ele abandonara o Rio de Janeiro e saíra em busca de paz de espírito e qualidade de vida. O seu paraíso se assemelhava ao lugar onde Gibran e Helga tinham habitado em Stuttgart, cercado de verde e num contato muito íntimo com a natureza.
Do Mestre, ele passou a receber mensagens, conselhos e inspiração, que aproveitava para pôr em livros e crônicas, publicados em jornais e revistas, e, mais tarde, através da internet. Tudo que precisava saber, ele consultava o Mestre, diante de um altar encimado com a figura de Saint Germain.
As respostas vinham claras e incisivas, não deixando margens a dúvidas de que se tratava de uma linguagem sagrada, só encontrada em Mestres e Seres de Hierarquias Superiores. Logo, ele se habituou ao linguajar do Mestre, em tudo semelhante ao que ocorrera na Alemanha com Gibran.
Ele e ela conversavam sobre todas essas maravilhosas ocorrências, de se sentirem continuadores da obra de Gibran e Helga. Vez por outra, corriam a consultar o livro, para comparar os acontecimentos atuais com as precognições contidas na obra de Gibran. Depois de algum tempo, já não mais se surpreendiam com as confirmações de tudo que fora profetizado no livro.
Memórias de um Profeta tornou-se uma espécie de bíblia da nova era. As suas proféticas recomendações começaram a ser adotadas em diversas regiões do planeta, seguindo minuciosamente tudo que o Mestre havia transmitido para Gibran.
As buscas sobre o que acontecera com Gibran e Helga prosseguiam, tanto na Alemanha como no Brasil. De vez em quando, surgiam notícias dando conta de uma nova pista sobre o paradeiro do casal, assim que eles pisaram em terras brasileiras. Mas, os indícios que indicavam um determinado caminho, logo se mostravam insuficientes para se chegar a alguma conclusão.
Gibran e Helga saíram de Hamburgo, no dia 11 de agosto de 1922 com o destino traçado por Saint Germain para que chegassem ao Rio de Janeiro antes do dia 7 de setembro, quando ocorreria a grande festa dos cem anos de independência. No entanto, não havia registro em lugar algum, sobre a passagem ou a permanência do casal na cidade.
Todos os recursos vinham sendo usados para que se descobrisse algum sinal que revelasse o destino do casal, em sua estada no Brasil. Os descendentes dos amigos de Stuttgart ansiavam por notícias, e temiam o pior. Mas, o pior para eles, talvez fosse o melhor para o casal. Afinal, eles estavam sob a proteção do grande Mestre do ocultismo, que melhor do que ninguém, segundo nos conta a história, era capaz de desaparecer e ressurgir tempos mais tarde, sem que se soubesse por onde andara e nem de onde viera.
Tudo levava a crer que os discípulos tinham seguido os passos do Mestre, e desapareceram da face da Terra, sem direito, porém, a ressurgir do nada, como era comum ocorrer com o Mestre. Desapareceram como Gibran e Helga e reapareceram com novas personalidades, ainda que nelas habitassem as mesmas almas que vinham viajando juntas através dos tempos.
CAPÍTULO TRINTA E OITO
Estamos chegando ao fim da nossa história, deixando para trás as incertezas de uma sociedade acostumada a só pensar no pior. O medo ainda prevalece entre os que julgando ter fé e acreditar na sua religião, veem seu Deus como um ser vingativo e rigoroso, e às vezes injusto por permitir desgraças e sofrimentos humanos.
Diante de um quadro em que, nem o Todo Poderoso é considerado justo e confiável, tem se tornado muito difícil manter a tranquilidade desta humanidade sofrida e amedrontada, que crê, mas não sabe bem no que acreditar.
As profecias do Mestre traçam um futuro promissor, que anima os que leem a obra de Gibran, mas que, logo se desanimam, ao conferir as notícias do dia. A vida segue o seu rumo, traçado pelo Criador, que ninguém sabe bem como definir, se um zeloso pai ou um rigoroso tirano.
Os crentes exaltam o amor do Pai pelos seus filhos, de preferência pelos que seguem suas religiões. A ciência exalta o seu progresso e tenta tranquilizar a todos com suas curas miraculosas, ainda que as epidemias se agravem e as doenças curáveis logo sejam substituídas por outras aparentemente incuráveis.
A realidade é que ninguém é capaz de ouvir a mensagem do seu Mestre, e tentar segui-la, como fez Gibran. A grande maioria só se interessa pelos ensinamentos que favoreçam seus interesses pessoais. Deus só é bom quando proporciona riqueza e sucesso. Caso contrário, muda-se de religião ou entra-se em greve contra Deus.
Num canto qualquer do planeta as almas de Gibran e de Helga cultivam suas crenças, cada qual ao seu jeito. Ele, seguindo as palavras do Mestre, que voltou a se comunicar com o discípulo, como fizera na Alemanha. Ela, amando a Mãe-Natureza, em quem reconhece a Divindade no seu aspecto físico, e a quem oferece seus rituais diários. Até quando, não se sabe.
O Mestre já mandou um recado de que ainda tem muito trabalho a ser feito, e que conta com os dois para preparar a humanidade para os novos tempos. Até 2050, eles têm trabalhos programados, não importando a idade ou o desgaste físico, pois disso cuida o Mestre.
E depois do Brasil, onde reencarnar? O Mestre já deixou esta pergunta no ar, sugerindo que ele e ela escolhessem o futuro. O tema ainda não entrou em pauta nas conversas do casal, mas, um dia, terá de ser dada uma definição a essa questão.
Reencarnar novamente no Brasil ou em outra região, dentre as quatro que serão formadas? Reencarnar na Terra ou em outro planeta mais evoluído para aprender, ou menos evoluído, para ensinar? Ou não reencarnar, e servir à Obra e aos Mestres nos mundos invisíveis, como adeptos e guardiões?
Ele e ela terão algumas boas opções pela frente, afinal têm servido à Hierarquia com muita dedicação e, até mesmo, com imensos sacrifícios. Qualquer das escolhas será excelente oportunidade para que suas almas deem grandes passos evolutivos.
A condição que ele tem colocado para o Mestre é que, em qualquer situação, eles querem continuar juntos. O Mestre já respondeu que nem poderia ser de outra forma, pois os dois formam o binômio yin e yang perfeito. Separá-los, poderia acarretar grandes retrocessos no processo de evolução da humanidade. Ele não entendeu muito bem o motivo alegado pelo Mestre, mas a resposta foi exatamente a que desejava ouvir.
Se o leitor se interessar pela obra de Gibran, e achá-la muito fantasiosa, não esqueça que a alma reencarnada de Gibran pode fazer parte do seu círculo de amizade, e não custa discutir o assunto com todos os amigos. Quem sabe, numa dessas conversas, ele não se faria presente e daria o seu testemunho sobre as afirmações do autor. Muitas vezes, a solução de grandes mistérios está mais próxima de nós do que somos capazes de perceber. Mistérios só são mistérios enquanto não são revelados.
Tenho feito o possível para que as memórias do profeta não caiam no esquecimento ou na descrença popular. O medo da humanidade tem sido mais forte do que a coragem de aceitar revelações que contrariam antigos paradigmas. Mas, aos poucos, de boca a ouvido, os mistérios são passados e as consciências despertam.
FIM


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

MEMÓRIAS DE UM PROFETA - CAPÍTULOS 31, 32, 33 E 34

CAPÍTULO TRINTA E UM
Gibran passou a receber mais visitas, por conta da sua visita a Rudolf Steiner. Wilhelm, seu amigo e acompanhante, foi o responsável por espalhar pelas redondezas que Gibran era um gênio, e que tinha conversado de igual para igual com o famoso filósofo e educador da Waldorf Astoria.
O nome de Steiner era muito conceituado na cidade, e diversas crianças da comunidade estudavam na Escola Experimental da fábrica, e vinham demonstrando grandes progressos em seu aprendizado.
As pessoas queriam saber quem era aquele vizinho, que fora recebido pelo responsável pelos modernos métodos de ensino introduzidos de forma pioneira em sua cidade. Gibran não se furtou a receber os vizinhos e, com sua habitual simplicidade, contou como havia sido sua entrevista com Steiner. As pessoas ouviam-no admiradas, pois, além dos fatos em si, havia a empatia de Gibran, que conquistava a todos que dele se aproximavam.
Gibran resumiu para todos os seus atentos ouvintes a conversa que tivera com o criador do novo método de ensino. A peregrinação à sua casa durou cerca de um mês, até que as visitas foram se espaçando, e cessaram tão repentinamente como haviam começado.
Wilhelm estava eufórico, e muito orgulhoso do amigo. Gibran é que não se perturbava com aqueles tantos elogios e exaltações que partiam dos lábios afiados do amigo. Aquela confusão vinha atrapalhando o seu trabalho, e ele estava ansioso para retomar a sua rotina.
Eis que Wilhelm surgiu com uma ideia fixa, que dormiu e acordou com ele, indo da véspera ao dia seguinte com tudo pronto, sem dar chances a Gibran de recusar a honra. Um livro, Gibran teria de pôr num livro todas as suas ideias e seus conhecimentos.
A essa altura, o amigo desconhecia que mais do que aprendia em livros, Gibran recebia orientação, conselhos e mensagens do seu Mestre Saint Germain. Wilhelm sabia bem de quem se tratava, pois pertencia à Sociedade Teosófica, e o nome do Mestre era íntimo de todos os associados que o reverenciavam como o grande Mestre da Nova Era.
Depois que Gibran foi autorizado pelo Mestre a revelar a verdade ao amigo, Wilhelm só fez amadurecer o projeto. Procurou um editor amigo e saiu atrás de recursos para publicar a obra e distribuí-la por toda a Europa.
Enquanto isso, Gibran recuperou a paz, e voltou a se dedicar a seus escritos, que já se constituía numa volumosa pilha de papéis, que precisariam ser organizados e revisados, antes que se pensasse em transformá-los numa obra literária. E, ainda faltava a autorização do Mestre, que não se manifestara sobre o assunto.
Gibran preferiu esquecer por uns tempos o audacioso projeto do amigo, aproveitando que a busca de recursos havia afastado Wilhelm do convívio com Gibran já havia dois meses. As revelações do Mestre, nesse meio-tempo, voltaram a se acelerar, produzindo novas dezenas de folhas de papel, narrando os acontecimentos de um futuro que já despontava para o mundo.
Certo dia, Gibran pôs-se a meditar, recostado no confortável divã que mantinha no canto do escritório para seus momentos de repouso, cada vez mais necessários, diante das horas e horas de dedicação a escriturar as mensagens do Mestre. Então, projetou-se em sua mente, o tempo futuro de que o Mestre falava, e se deu conta de que dali a mais uns 50 anos os fatos narrados nas mensagens iam acontecer, e ele já teria reencarnado.
Essa sensação causou-lhe um misto de curiosidade e mal estar. Ele se viu no futuro, mas não se identificou mais com o passado. E o passado era o atual presente. Ele teria de desencarnar, para reencarnar no Brasil. Ele ia falar um novo idioma, conviver com novos hábitos e costumes, e formar uma nova família.
Quais seriam os papéis desempenhados por Helga, Karl e Karine na sua próxima encarnação? Eles estariam juntos, se relacionariam e se reconheceriam? Claro que não! Ele mesmo respondeu às suas perguntas, e não conseguiu controlar a angústia das perdas.
O Mestre informara que Helga seria sua mulher no Brasil, mas não mencionara os dois filhos. Ele não se conteve, e pela primeira vez decidiu fazer perguntas ao Mestre. Sentou-se à mesa, e com papel e caneta na mão, aguardou as respostas. Durante duas horas, ele recebeu o silêncio como resposta. Desistiu, e encerrou seus trabalhos naquele dia.
A conversa com Helga foi mais dirigida às suas ervas do que às mensagens. Helga já o conhecia o bastante para não tentar retirar dele relatos que ele não estava disposto a fazer. Entre um canteiro e outro, a conversa fluiu. Entre uma colherada de sopa e outra, o silêncio denunciou que aquela noite acabaria cedo. E foi o que aconteceu, pois às nove horas, a casa estava em silêncio e as luzes apagadas.


CAPÍTULO TRINTA E DOIS
Gibran despertou cedo, e ficou a recordar suas divagações de véspera. As lembranças não lhe foram agradáveis, e ele tratou de pular fora da cama, e foi respirar o ar puro da manhã. A sensação que estava tendo é que o processo de comunicação com o Mestre estava chegando ao fim.
Encerrado o desjejum, e após a conversa matinal com Helga, ele se trancou no escritório, e mal teve tempo de sentar, as mensagens começaram a jorrar em sua mente. O Mestre parecia apressado, Gibran, sentindo isto, não se deixou abater, e perseguiu os pensamentos com a pena em punho.
Os temas do dia começaram versando sobre a educação do futuro, numa espécie de continuidade do que fora registrado após seu encontro com Rudolf Steiner. As mensagens falavam das escolas do terceiro milênio, que deveriam seguir os conceitos de Steiner.
As universidades, que ganhariam muita força durante a segunda metade do segundo milênio, começariam a perder sua credibilidade a partir de 2050. Nos trinta anos seguintes, muitas das mais tradicionais universidades do mundo fechariam ou mudariam completamente a sua metodologia de ensino.
Os diplomas serão substituídos por certificados de tendências e vocações que servirão para orientar Escolas de Formação Profissional que corresponderão à pós-graduação. Os doutorados e mestrados serão ministrados em Centros de Filosofia e Parapsicologia, que prepararão os grandes mestres dos conhecimentos físicos e metafísicos, responsáveis pela preparação dos futuros coordenadores do Ensino Mundial. Eles serão os futuros substitutos dos Mestres da Sabedoria, quando esses se aposentarem, para passar a ocupar uma cadeira no Conselho de Anciãos.
Gibran demonstrou curiosidade com os novos métodos de ensino a ser adotados em todas as nações, ele ficou imaginando como as crianças se preparariam para chegar a funções de tamanha relevância para a educação e a cultura do planeta.
Imediatamente à sua projeção mental em relação ao assunto, começou um fluxo de imagens e ideais tratando da formação escolar, desde os primeiros anos de vida. As respostas à síntese dos pensamentos de Gibran chegavam ordenadamente, facilitando seus registros.
As crianças até os 14 anos de idade somente serão orientadas à leitura e à escrita, lendo obras literárias consideradas fundamentais à expansão cultural do povo de cada região. Os temas das obras versariam sobre a história de cada região, suas raízes e tradições. As obras clássicas serão divulgadas em todas as regiões do planeta, e as diversas escolas de filosofia serão ensinadas por mestres preparados especialmente para a introdução de princípios filosóficos e espirituais junto à juventude.
Durante esse período inicial de estudos, os aprendizes serão estimulados para as práticas esportivas e artísticas, que serão desenvolvidas fora das salas de aula. As Escolas atenderão em horário integral, pois oferecerão todas as opções de estudo, lazer e esportes, de modo que, de volta ao lar, não haveria deveres a fazer e nem diversões que já não houvessem sido preenchidas nos horários de estudo. Dever e lazer se confundiriam, e não haveria separação nas suas atividades, estudo e diversão caminhariam juntos.
A partir dos 15 anos, os jovens estudantes serão selecionados por suas aptidões e encaminhados às Escolas Técnicas, quando serão preparados para o exercício de funções matemáticas, que incluiriam a física, a química e as ciências divinatórias, como a numerologia, a astrologia, o tarô e o I Ching.
Os aprendizes com aptidões para tratamentos e curas serão, mais tarde, encaminhados aos Centros de Prevenção e Terapias da Saúde, onde serão preparados para se tornar os terapeutas completos, os agentes de cura em todos os níveis, físico, emocional, mental e espiritual.
As mensagens prosseguiam sem dar tempo a Gibran para tomar um gole d’água. A saúde será tratada de forma preventiva, e existirão Planos de Saúde elaborados pelo Estado que orientarão sobre a alimentação ideal, de acordo com cada região. A alimentação vegetariana será adotada em todas as quatro novas regiões da Terra, com variações de métodos, de acordo com os hábitos e costumes locais.
O mundo estará interligado por redes de televisão e internet, que oferecerão programas didáticos, informativos, esportivos e filmes. As notícias serão esclarecedoras e não especulativas. Os escândalos não serão promovidos nos jornais, pois não haverá interesse por parte da população por fatos que não tenham interesse documental e cultural.
Essas mudanças irão acontecendo a partir do ano 2000, e acelerando após 2050. Em torno de 2100, tudo isso será uma realidade de vida, e povos de outros planetas começarão a visitar a Terra em missões de estudo, para aprender os métodos aplicados com sucesso.
A descida e a subida de naves provenientes de outras dimensões serão fatos corriqueiros em todas as partes do mundo, não chamando a atenção nem dos órgãos de informação e nem da população. A troca de experiências entre povos de diversas galáxias proporcionará uma grande aceleração no progresso científico e espiritual da Terra. A Terra vai ensinar a esses povos como lidar com a emoção e com o livre arbítrio, práticas pouco conhecidas pela maioria deles.
O cansaço fez Gibran pousar a pena, e o Mestre interromper as mensagens. Era tarde, o cheiro saboroso de uma sopa de ervas “à lá Helga” invadia o escritório trazendo Gibran, enfim, à realidade. O corpo físico assumiu os trabalhos, dando descanso à alma de Gibran.
A refeição foi servida sob os relatos de Gibran e a atenção de Helga. A todo instante, ele interrompia a narrativa e dizia para Helga que estava ficando muito ansioso em conhecer logo esse novo mundo. Mas, para isso, era preciso reencarnar lá, e antes disso, morrer. Será que ele estava preparado para deixar seu corpo e sair atrás do próximo?
Helga perguntou-se o mesmo. Ambos não souberam responder. O melhor foi mudar o rumo da prosa, e falar das plantações de ervas que eram sucesso absoluto nas redondezas. Enquanto escrevia, distante do mundo, Gibran não tomava conhecimento do movimento de visitantes em busca das ervas, de suas sementes e das instruções de plantio e consumo.
Agora, era a vez de Helga, e ela falou até bater o sono. Chegou uma hora que, nem ela conseguia articular mais as palavras, e nem ele sustentar a cabeça. O sono quase os encontrou no meio do caminho entre a sala e o quarto. Depois, somente os sonhos poderiam dar continuidade às narrativas interrompidas.


CAPÍTULO TRINTA E TRÊS
As mensagens se aceleravam. Gibran estava ficando cansado de passar o dia inteiro escrevendo, sem tempo de estender as pernas. Helga estava corada, pela vida em contacto com a natureza. Gibran apresentava uma palidez doentia, ainda que se sentisse forte e sadio. A ausência de luz solar estava a lhe fazer falta.
Helga estava preocupada com a saúde dele. Mas, ele explicou-lhe que o Mestre garantira que não ia ter qualquer doença. E era preciso acabar o trabalho que se arrastava há anos, e que teria um valor inestimável para as civilizações futuras.
Gibran acumulava pilhas e pilhas de papel, narrando os mistérios dos tempos futuros, que vinham sendo revelados pelo Mestre. Passou-se mais um ano, ele e Helga comemorariam 81 anos, ele no início do ano e ela no fim. Era 1922, e o Mestre alertara-o que restava a eles pouco tempo de vida na Alemanha, pois a contagem regressiva para suas reencarnações no Brasil já começara.
Gibran não tocou no assunto com Helga, para não deixá-la preocupada. Ele confiava no Mestre, e sabia que a passagem deles de uma vida para a outra seria suave e sem qualquer trauma. Ele não sabia explicar como isso se passaria, mas confiava no Mestre, e isto era o bastante.
As últimas profecias vinham tratando das novas estruturas das cidades do futuro. Aos poucos, os aglomerados de prédios e gente seriam dissolvidos e reagrupados em áreas que se distanciariam umas das outras em cerca de 5 km. Os moradores de cada nova cidade seriam controlados para nunca ultrapassar a quantidade de 5.000 habitantes, que ocupariam lotes de, no mínimo, 1.000 metros quadrados.
As cidades seriam projetadas de acordo com as vocações das famílias que para elas seriam encaminhadas. Umas seriam construídas para receber profissionais da indústria. Outras seriam habitadas por gente do comércio. Outras mais se destinariam a técnicos e profissionais liberais.
Todas, porém, seriam estruturadas para oferecer bem-estar e qualidade de vida a seus moradores. Praças ajardinadas, em todos os cruzamentos. Jardineiras nas calçadas e árvores floridas em todas as ruas.
Gibran pensava e escrevia. A mente questionava aquele enquadramento das populações em fórmulas padrões, que tirariam a criatividade dos urbanistas e jardineiros. A mão escrevia a resposta aos seus pensamentos, descrevendo os projetos urbanísticos diferenciados, com cada cidade criando os seus próprios parques e jardins. Até as flores seriam do gosto da população, que teria a sua representação no Departamento de Parques e Jardins.
As cidades seriam interligadas por rodovias que cortariam áreas de florestas e matas nativas. Essas regiões naturais seriam Parques Municipais, Estaduais ou Federais, de acordo com suas localizações e extensões.
As rodovias se encontrariam num grande Centro Urbano, onde estariam sediados os Poderes Públicos e as Entidades Privadas. As distâncias entre elas e o Centro Urbano nunca seriam superiores a 5 km. Ali estariam Bancos e Sedes de Empresas, Museus e Teatros, Rodoviárias Intermunicipais e Aeroportos Regionais.
Os grandes Centros Urbanos Regionais se ligariam aos Centros Administrativos Estaduais e esses ao Governo Central Federal. Cada Governo Central estaria integrado a um dos quatro grandes Governos Continentais.
Gibran não pode conter a crítica a esse controle centralizado, obrigando todos a aceitar um padrão imposto de cima para baixo. Imediatamente, ele começou a responder à sua crítica, anotando que cada decisão será tomada pelos Conselhos das Cidades, e assim sucessivamente, conforme os interesses em jogo, até que se chegue às deliberações dos Governos Centrais.
O dinheiro será mais do que o suficiente para todos os aperfeiçoamentos administrativos e embelezamentos urbanísticos, com o que se economizará com o fim das guerras. A economia será centralizada e administrada pelos quatro grandes Governos Continentais, sendo os recursos distribuídos de acordo com as necessidades de cada região do planeta.
Utopia, mera utopia! Assim pensou Gibran. A resposta veio de imediato. Os deuses estarão de volta para governar a Terra, e os sonhos se tornarão realidade. Os governantes divinos permanecerão por novos cem anos entre nós, governando a Terra. De 2050 a 2150, haverá uma enorme transformação na forma de vida de todos e nada mais será como antes.
A partir de 2150, os deuses devolverão o comando aos humanos, e se retirarão. Daí em diante, só os descendentes dos deuses poderão assumir o poder. E, no futuro, os seus descendentes sempre se constituirão nos administradores planetários. Haverá uma nova descendência real, os sangues violetas, que substituirão os antigos sangues azuis.
Gibran fez umas rápidas contas, e chegou à conclusão que em 2050 ele já não deveria estar vivo, em sua nova encarnação. A explicação não demorou o tempo de um piscar de olhos, já cansados de tanto se concentrar na escrita. Em 2050, ele faria parte da corte dos novos governantes que seriam descendentes, assim como ele, dos kumaras venusianos.
A comunicação com o Mestre se interrompeu abruptamente, e nada mais chegou à mente de Gibran. Ele também estava exausto, era muita energia despendida e muita emoção acumulada.
Aquela noite seria farta de novidades, pois o que ele acabara de saber do Mestre seria passado para Helga com todas as letras e sons. Ela ia ficar encantada com as novidades, e ao sabor de uma das suas sopas de ervas, eles entrariam pela noite adentro. E foi o que aconteceu.
No dia seguinte, o sol já ia alto, quando resolveram levantar. A noite foi longa e recheada de sonhos. Helga sonhara com a nova casa no Brasil e Gibran tivera contatos com seus irmãos kumaras no plano astral. Era emoção demais, e o desjejum entrou pela tarde. Naquele dia, nem as ervas e nem a escrita receberam a atenção de costume.
De mãos dadas, os dois decidiram passear pelo campo. As redondezas de sua casa ainda mantinham aquele mesmo ar campestre de quando eles haviam mudado. O dia estava morno e uma brisa de fim de tarde veio encontrá-los a passear e a fazer planos para a nova vida.


CAPÍTULO TRINTA E QUATRO
Um dia, Gibran chegou com uma novidade para Helga. O Mestre esperava-os no Brasil, em corpo físico, durante as comemorações dos cem anos de independência. Helga quis saber quando isso viria a ocorrer, e quando viajariam.
A grande celebração se daria no dia 7 de setembro daquele ano de 1922. E a viagem ocorreria em meados de agosto, para que nenhum contratempo os impedissem de se fazer presentes no dia aprazado.
Helga fez as contas, e concluiu que tinham pouco mais de dois meses pela frente, e muitas providências a tomar, antes da partida. Ela não questionou, nem a viagem e nem a data. E Gibran percebeu que ela, mesmo dedicada às suas ervas, não se descuidava de acompanhar os progressos em suas conversas com o Mestre.
Helga sabia que seriam necessários cerca de 20 anos de preparação, entre a morte dos seus corpos físicos e a reencarnação no Brasil. Num rápido cálculo, ela deduziu que reencarnariam em torno de 1945, época bem próxima do final da segunda guerra.
Gibran ouviu-a admirado, e se encantou com a precisão das informações e com a lembrança dos detalhes que lhe haviam sido passados já fazia tempo. Helga percebeu o seu ar de assustado, e fez um sinal com a cabeça para que seguissem em frente, pois havia muito a ser preparado para a viagem.
Helga, de repente, deu mostras de aguardar aquele dia, há muito tempo, pelo modo como começou a se organizar para a viagem. Gibran é que ficou meio aturdido, entre o anúncio da data da viagem e a naturalidade com que Helga recebeu a notícia. Passado o impacto inicial, os dois arregaçaram as mangas e se puseram a agendar o programa que continha todas as providências a serem tomadas, antes da viagem.
Gibran passou duas semanas trancado no escritório, organizando a papelada com seus manuscritos e anotações sobre as obras literárias a que teve acesso, desde que mudaram para Stuttgart.
Helga dedicou-se a preparar a futura colheita de ervas e brotos que levaria para o Brasil. Ela tinha o pressentimento que não voltariam para a Alemanha, e não queria deixar para trás suas plantações de ervas. As que não seriam aproveitadas, ela começou a distribuir na vizinhança, com direito a recomendações e instruções de replantio e colheita.
Wilhelm soube que o amigo viajaria para o Brasil, e veio relembrar-lhe o compromisso de escrever um livro sobre suas conversas com o Mestre. Gibran garantiu-lhe entregar os manuscritos conferidos e editados na ordem a ser publicados, uma semana antes da viagem.
Era preciso avisar os filhos, e telegramas foram expedidos para Paris e para o Tibete, onde se encontravam Karl e Karine. Pouco tempo depois, chegaram suas respostas, encarando com absoluta naturalidade a viagem dos pais. Desejos de boa viagem foram suficientes para selar o contato dos dois com os pais, naquele período que antecedeu a partida.